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Orgulhosamente Vigiense

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A quase desconhecida história das antigas práticas de enterramentos na Vigia oitocentista e cemitérios de outrora.

Sepulturas encontradas em escavações do antigo cemitério de Vigia, entre Rua de Nazaré e Rua das Flores - Centro de Vigia.

Houve um tempo em que o sepultamento de fidalgos, pessoas de maior colocação social, era feito dentro das igrejas e até nos arredores das mesmas. Esta prática se dava pela tradição que os rituais fúnebres, principalmente na primeira metade do século XIX, exercia sobre a cristandade de todo o território nacional naquela época. O enterro dentro dos templos sacrais era forma do colocar o espirito mais perto de salvação celestial. Segundo a ritualística católica os sepultamentos feitos em locais inadequados traziam tormentos para a alma do morto, dificultando sua travessia para o além, em um momento de ampla crença da continuidade da vida após a morte, bem como, uma ocasião de reafirmar a distinção social em que se vivia, propiciando locais de sepultamento diferenciados. Já os cemitérios extra-muros (fora do chão sagrado de igreja e pequenas capelas) eram utilizados para enterrar pessoas sem prestígio social, como indigentes, escravos, condenados à morte, acatólicos, e excomungados”, assim, “ninguém queria ser enterrado nesses espaços e até mesmo os mais pobres tornavam-se membros de irmandades para garantir o que consideravam um enterro decente. As irmandades e as Ordens Terceiras, que se multiplicaram no decorrer do século XIX em toda a Província, tinham detro de seus estatutos a responsabilidade dos tramites e condução dos ritus funéricos de seus irmãos.

“Além de ser bom morer em terra firme era também indispensável ser enterrado em solo sagrado e perto de casa. Para os luso-brasileiros, até pelo menos a metade dos oitocentos, esse lugar ainda era a igreja. (...) Ter sepultura na igreja era como tornar-se inquilino da Casa de Deus. A proximidade física entre cadáveres e imagens de santos e anjos representavam arranjo premonitório e propiciador da proximidade espiritual entre a alma e os seres divinos no reino celeste. A igreja representava uma espécie de portal do Paraíso” - João Reis, especialista em cultura funerária no Brasil.

A visão temerosa da morte que era confrontada com o desejo de descanço eterno dentro das capelas e igrejas era confirmada e resgistrada no testamento dos prestes a morrer. Uma das primeiras posturas dos vivos para se ter uma morte digna no Brasil oitocentista era escrever o seu testamento, que podiam ser escrito com bastante antecedência da morte, como o fez ,em Vigia, Joana Innocencia da Silva em dezembro de 1872, “que por não saber ler e nem escrever, pedi a Ferreira Guimarães por mim o fisesse e a meu rogo apignasse”, mas o seu falecimento só aconteceu em 1884. Contudo, as mais contundentes preocupações expressas nos testamentos eram com relação ao local do sepultamento. No testamento de Rosa Leal, conferido no ano de 1833, foi registrado:
“Ordeno que o meu corpo seja sepultado na Irmandade da Senhora da Luz no lugar de Porto Salvo quando haja conjuntura, aparecendo aos meus herdeiros mais diante, será na Igreja Matris desta Villa”.

A presença da morte e dos enterros intensificou-se em Vigia na segunda metade do século XIX quando as epidemias (cólera, varíola, sarampo ee febre amarela) assolaram vidas em praticamente toda a Província, mas com muito mais força aqui pelas terras vigilenga, acabando por contribuir para as mudanças das atitudes mentais diante dos mortos e da morte. O poder público tentou implementar medidas para diminuir os estragos das epidemias que chegavam a capital paraense pelo seu porto e já estavam se espalhando por todo o interior. A criação de uma comissão de médicos, a fiscalização dos portos, a assistência aos pobres com medicamentos, o melhoramento das condições de higiene da Capital, foram algumas medidas tomadas pela Junta de Higiene de Belém para tentar minimizar os estragos das moléstias que devastavam o Grão Pará. As epidemias acabavam por romper a ordem cotidiana das pessoas, fossem elas ricas ou pobres, principalmente por espalhar o medo e o temor diante da morte, a qual em tempos de surtos epidêmicos fica mais presente. Diante do quadro, os odores emanados dos cadáveres poderiam afetar de forma negativa a vida das pessoas que estivessem próximas.

Vigia inicia a década de 1870 sendo atacada pela varíola, trazendo implicações que chegam até mesmo ao despovoamento da cidade. É certo que os moradores temiam as doenças, mas acima de tudo da consequência delas: a morte; que já havia ceifada a vida de vários vigienses e do próprio vigário padre Aragão, membro da comissão de socorro para combater a varíola, despertando ainda mais aflição na população por ser ele um sacerdote. Por conseguinte, a atitude tomada pelo poder público, através do Inspetor interino da saúde publica, foi enviar um médico habilitado para prestar socorro ás vítimas, com os devidos meios para combater a enfermidade. Os homens da ciência (médicos), com ampla aceitação no Legislativo, defendiam a “limpeza” da cidade, transferindo os cemitérios para áreas distantes dos aglomerados urbanos, purificando-os das impurezas da decomposição do corpo. Já os promotores do Catolicismo (padres e a população em geral), resistiam ao final da antiga simbologia funerária. Na capital do Pará, a conjuntura de febre amarela acabou propiciando um ambiente favorável para a transferência dos enterramentos das igrejas e seus arredores para os cemitérios públicos, favorecendo o discurso médico. Contudo, mesmo com resistência por parte de alguns setores da população da província do Pará, as pessoas foram se adaptando ao novo regime funerário que, para isso, a propagação das epidemias ajudaram. Os mortos passaram a ser temidos instrumentos da desordem causada pelas epidemias. Em primeiro lugar ficava a saúde física dos vivos, não à saúde espiritual dos mortos, convergindo em expulsão destes da cidade dos vivos, das igrejas aos cemitérios intramuros.

Foi nos meados do século XIX que os cemitérios começaram a ser construídos na Vigia e os enterramentos nas igrejas foram gradualmente sendo abandonados pela população. Foi quando o Presidente da Província do Pará, Jerônimo Francisco Coelho em 1848, remete correspondência ao presidente da câmara municipal, cujo conteúdo informa a proibição dos enterramentos nas igrejas e seus adros por trazer prejuízos a saúde pública:
“Tendo por occasião da epidemia reinante (que infelizmente ainda continua) e sob proposta de uma Commissão de Medicos prohibindo os enterramentos de cadaveres no interior ou adros das Igrejas ou Cemiterios a ellas annexos, por ser altamente perniciosos a saúde publica semelhante pratica, que por esse motivo se acha quazi geralmente proscripta pelos povos mais cultos da Christandade, por se haver plenamente reconhecido pela experiencia, que os enterramentos nas Igrejas, e no centro dos povoados, constituem um poderoso fóco de corrupção, e manancial de mortiferos miasmas, de que até tem resultado numerosos sinistros de asfixia, seguidos de morte”.

Aqui em Vigia, segundo informações do Barão de Guajará, escrevendo sobre a “igreja de pedras” faz referência a um antigo cemitério (não publico):
“Ao lado direito, junto a uma das paredes laterais, está hoje á capela de Bom Jesus dos Passos, levantada pelos devotos enquanto eles não acabarem a Igreja, que já começaram a edificar no extremo da travessa das flores, onde foi o antigo cemitério”.

Em 6 de janeiro de 1868, o presidente da província, excelentíssimo vice - Almirante e Conselheiro de Guerra Joaquim Raymundo de Lamare, publicou o seu relatório, onde consta uma exigência da Câmara da Vigia, pela qual:

“Esta Câmara exige, como uma medida da maior urgência para a hygiene publica da Cidade, a transferência do cemitério publico do lugar em que se acha para outro mais distante, pois são innumeras as reclamações dos habitantes, visto como está situado aquelle cemitério já quase no centro da Cidade, e calcula que 5:000$000 réis chegarão para essa despeza, attento os trabalhos accessorios indispensáveis como abertura de nova rua, e aterro de pântanos”

A construção foi autorizada pela lei provincial nº 560, de 7 outubro de 1868. Não se sabe ao certo o local preciso da construção deste primeiro cemitério publico, mas segundo a tradição oral vigiense, onde provavelmente havia um cemitério, hoje está localizado a Escola Municipal Teodoro Rodrigues e a Praça Olavo Raiol. Já em 1877, novamente a Câmara de Vigia “pede a quantia de 300$000 reis para os reparos de que precisa o Cemitério”.
Cada vez mais afastados do núcleo povoado, às vezes os mortos só eram visitados no dia de finados, momento dedicado à lembrança daqueles que se foram, onde se recorriam às recordações dos parentes e amigos que faleceram. Assim os redatores do periódico “O Espelho” escreveram sobre o dia de finados de 1878:

“Nesse mesmo dia (1º de novembro) á noite effectuou-se a procissão de finados, sahindo do cemiterio para a Igreja... Cantou-se o Libera-mé em diversas sepulturas e dentro da capella por alma de todos os finados. Tristezas, lagrimas – eis o que se notava: o pae orava pelo filho e pela esposa, a esposa pelo esposo; o irmão pelo irmão, o filho pelos paes, a orpha pela salvação de quem a deixou sem abrigo; finalmente todos oravão, excepto quem esteve possuído da – vaidade. Não deixamos de censurar o procedimento de alguns sujeitos que fumavam e andavam de chapeo na cabeça por dentro do cemitério. Não se deve abusar de um lugar só destinado ao respeito aos mortos”. Esteve bem concorrido o acto e não podemos deixar de louvar ao zeloso snr. Fiscal pela maneira com que se portou pedindo e incumbindo-se da limpeza da travessa das almas, que tornou-se um paraíso, devido também ao concurso dos moradores d’ella (...).

A travessa das almas. Ainda está nítida na memória dos morados da cidade a lembrança de um cemitério que ficava localizado na altura da atual travessa Vilhena Alves, chamado também de “Cemitério da Soledade” (o segundo cemitério da cidade), um pouco mais afastado do litoral, de onde Vigia começou a ser habitada. Essa informação coincide com o pedido de transferência que a Câmara da Vigia fez, em 1868, para a construção de um Cemitério mais afastado da população. Assim, à medida que a cidade ia crescendo populacionalmente, o cemitério acabava sendo “engolido” e havia a necessidade de sua transferência para uma área mais distante. Nos dias atuais, nenhum vestígio material existe dessa necrópole, havendo hoje as instalações da caixa d’água da COSANPA e algumas residências de moradores.

Os anos passam, e a partir da década de 1920 começam os sepultamentos na Necrópole São Francisco de Assis, na Av. Marciolino Alves. Com o aumento populacional e lotação esgotada deste cemitério, foi edificada na década de 2000 a nova Necrópole, popularmente conhecido como “Cemitério novo” e localizado na Trav. Generalíssimo Deodoro, esquina posterior do “São Francisco”.

Os resquícios dos antigos enterramentos nas igrejas são encontrados hoje nos quintais das residências que rodeiam a Capela do Bom Jesus (Igreja de Pedra), por exemplo, ou escondidas a poucos palmos da superfície em vários outros cantos desta antiga cidade, até mesmo nas imediações da Madre de Deus, quem sabe?

Na imagem, vemos pedaços de lápides (com ornamentos em baixo e alto relevo talhados em pedra de mármore), encontrada no quintal de uma residência localizada na Rua de Nazaré, atrás do templo de pedras.

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Retrografia Vigilenga

Fonte: Cultura Funerária na Cidade de Vigia no Final dos Oitocentos: Transformações e permanências em torno do imaginário da morte (1860-1885). Monografia de Especialização. UFPA. Igor Soeiro, 2008.

Foto: Amazo Alcantara.

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