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Orgulhosamente Vigiense

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A quase esquecida história do fogo no andor

Era setembro de 1943, quase no final da festa de Nossa Senhora de Nazaré, no arraial uma multidão de fieis lotava o espaço arborizado da Praça da Matriz, muitos sentados nos bancos admirando a beleza dos adornos do andor sagrado, que naquele ano era feito de flores de plástico acabados com parafina, para melhor realce em homenagem a padroeira. Para iluminar a berlinda, pequenas lâmpadas multicores que tornou o andor um espetáculo de beleza e criatividade, coisas do dote artístico vigilengo.

Encravada em uma cesta estava a imagem da santa, rodeada de flores e reverenciada por todos que ali chegavam. Neste ambiente de respeito e veneração – sentimentos incontestáveis naquela época – inesperadamente surgem chamas por entre a ornamentação, que se espalham por todo o andor, causando pânico entre os presentes.

Como testemunha ocular do acontecimento, estava Euclides Raiol, o “Bengo” (in memoriam), que relatou:
“Como costume da época, a imagem de Nossa Senhora ficava na berlinda até a novena dos pescadores e, no sábado, quando da novena das jovens, era colocada no andor já preparado para a procissão do dia da festa. Fazendo guarda da berlinda, dois acólitos, o Carmélio e eu, assim como o senhor Boanerges Marques de Oliveira, tesoureiro da festividade, e Manuel Cardoso, o “Soiá”, que também faziam a guarda da berlinda e da salva com a contribuição dos fieis, quando surpreendentemente surgem chamas, que se propagaram pelas flores atingindo os cabelos e o manto da imagem, deixando os presentes aflitos, chorando, pronunciando palavras de desespero. Nesse momento difícil, o sr. Boanerges, tirando o seu paletó, procurava abafar o fogo com ajuda do Soiá, ao mesmo tempo em que o padre Alcides, mostrando calma, sobe na credencia que estava ao lado do andor, prendendo a batina entre os joelhos e, juntando as forças, com certa dificuldade, arranca da peanha a imagem de Nossa Senhora. Tarefa arrojada. Para alivio dos fieis, o padre, já com a imagem nas mãos, com parte do manto e cabelos queimados, é colocada sobre a mesa do seu altar, para os olhares tristes dos presentes.”

Em virtude do acontecimento, foram encerradas mais cedo as atividades da festa do arraial. Consta ainda, que os dias que precederam a ida da imagem para os devidos trabalhos de restauração na capital, foram dias de muitas orações e novenas, sempre com a igreja lotada de fieis.
Os dias passavam vagarosos e cheios de expectativas da população pela volta da santa padroeira ao seu lugar de origem. Esperança e saudade era o que se via por todos os cantos da cidade.

De Belém, em um automóvel, o vigário acompanhado do sr. Boanerges e de mais dois acólitos, Euclides e Carmélio, conduziram a imagem da santa até a Vigia. Passando pela cidade de Santa Isabel e pelas vilas do Km 14, Santo Antonio do Tauá e Santa Rosa, chegaram em Vigia perto da 17 horas. Esperando na esquina da “Suburbana” estava a multidão eufórica que acabara de rezar o terço de boas vindas, muitos cânticos e aplausos saudaram o retorno da sagrada imagem de Nossa Senhora.

Em honra a esse momento, o poeta Manuel Saraiva compôs a letra do cântico de chegada, sendo musicalizada pelo próprio maestro e vigário Alcides Paranhos.

“Nossa Mãe do céu
Eis a nossa Mãe do céu
Sidéria luz da Vigia
Pela qual sentimos tanta
Profunda melancolia.

(refrão)
Vinde, oh vinde, oh Mãe querida
Senhora de Nazaré
Alegre vos veneramos
Fonte de amor e de fé.

Sem tua luz divinal
Vivemos na solidão
Não tem vida nem guarida
Nosso frágil coração.”

Já com a imagem na berlinda e imenso acompanhamento, seguiu a procissão para a capela de São Sebastião, no bairro do Arapiranga, com alegria do povo, cantando e intercalando com os dobrados executados pela banda “31 de Agosto” - no qual, um dos dobrados composto pelo pároco especialmente para este fim. Do bairro, segue um novo Círio pelas ruas de terra da cidade até a Madre de Deus, que finaliza com missa solene e benção com a imagem santa. Encerrando com repiques festivos a programação e louvor da chegada de Nossa Senhora de Nazaré da Vigia.

PEQUENA NOTA CONSPIRATÓRIA: Reza (com muita fé) a LENDA, que neste episódio, a antiga imagem de Nossa Senhora de Nazaré da Vigia (original) venerada desde o século XVII pelos devotos desta terra, fica confinada aos cuidados da Arquidiocese de Belém, que cordialmente nos envia uma santa réplica da imagem. Reza a mesma lenda, que numa oportuna observação na parte posterior da imagem da capital, nota-se alguns resquícios chamuscados originados no incêndio de 1943. Fato ou picuinha?

PS: Ora...ora! Trapaça desta, é coisa que não abala a fé na mãe santa, Senhora de Nazaré.

Retrografia Vigilenga
Fonte: Vigia de Nazaré. Fragmentos de uma História - Bartolomeu J. de Barros (2009).
Ilustração: Deia Palheta
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