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VIGILENGA “15 DE AGOSTO”, A MAIOR AVENTURA MARÍTIMA DE TODOS OS TEMPOS: O RAID BELÉM – RIO DE JANEIRO.

Fonte do pesquisador e maior conhecedor sobre a história das Vigilengas no Brasil Ailson dos Santos Cardoso(Ney)

LIVRO 15 DE AGOSTO.jpg

Canoa vigilenga “15 de Agosto” em Recife. Fonte: A Província de Recife.

O dia 15 de agosto de 1923, data em que era comemorado o centenário da adesão do Pará a independência do Brasil, João Nunes e Flavio Moreira, idealizaram empreender um feito que registrasse de maneira forte a data daquela festiva data.

Assim depois de várias indecisões resolveram realizar a travessia oceânica de Belém até o Rio de Janeiro a bordo da mais popular canoa paraense, a VIGILENGA, enfrentando todos os perigos que expõe o oceano atlântico. Com o patrocínio do governo do estado, do município de Belém e do Yole Club de Belém, os bravos pilotos e tripulantes da canoa Vigilenga “15 de Agosto”, partiram exatamente as seis horas da manhã do dia 15 de agosto de 1923.

Foi a maior prova de navegação da América do Sul numa canoa de sete metros de comprimento por três metros e meio de largura, aqueles cinco homens da cidade de Vigia no estado do Pará, se aventuraram a percorrer a costa brasileira de Belém ao Rio de Janeiro. E foi com excepcional braura que o concluiu em seis meses, atestando mais uma vez a resistência e a tenacidade que caracterizam a gente do Norte.

Em matéria jornalística de primeiro de fevereiro de 1924, nas páginas do jornal carioca “O Paiz”, exalta a canoa vigilenga, respeitando a ortografia da época, transcrevemos na íntegra, de autoria do redator do jornal, Alves de Souza:

 

NOSSA GENTE HEROICA

Aqui transcrevemos na integra todas as reportagens do jornal mais famoso da América do Sul, “O Paiz” que acompanharam o feito marítimo de de a cidade de Belém até o Rio de Janeiro dos intépridos pescadores vigilengos a bordo da vigilenga “15 de agosto”.

            Publicado no jornal “O Paiz” no dia primeiro de fevereiro de 1924.

Na primeira quinzena de fevereiro, a Guanabara receberá a visita de outros bravos. Vém estes de mais longe, das ribas distantes do Extremo Norte, onde também há, na vibração máxima do enthusiasmo e da fé, o sentimento ardente da nacionalidade.

A 15 de agosto do ano passado, celebrou o Pará o primeiro século da sua incorporação effetiva á sabedoria brasileira. Os paraenses não se limitam a festejar no ambiente domestico a conquista da liberdade, que marcou a sua gloriosa adhesão, á independencia nacional. Quiseram que transbordasse das fronteiras da sua terra a effusão de civismo com que comemoram a data, como no desejo de estende-la, essa enffusão abençoada e communicativa, ao Brasil inteiro, por um modo que haveria de tornar menos regionalista e perecível o frêmito do seu enthusiasmo e mais accentuadamente brasileira a altivez do seu orgulho.

Assim, sob o patrocínio do governador do Estado – e o Sr. Souza Castro desvelou-se em estimular de todo modo o commettimento dos seus conterrâneos, decidiu um prospero club náutico local, o Yole Club, conjugar esforços no sentido de organizar o raid Belém – Rio de Janeiro em canoa, de um typo característico empregado no trafego commercial da costa e na pesca ao largo do litoral do continente e do archipelago de Marajó.

A “15 de agosto”, há quase seis mezes, partia do porto de Belem a embarcação fragílima, que ia affrontar o oceano, realizando a mais destemida e a maior prova náutica do centenário, com as suas modestas cinco toneladas, os seus trinta palmos de comprimento, um mastro, o “gurupé” para a “bujarrona” (uma vela grande e uma pequena, accentuadamente triangular) e cinco homens a bordo, dois dos quaes, os Srs. Flavio Moreira e João Nunes, são hábeis pilotos profissionaes da costa paraense.

Em menos de quatro mezes, escalando pelo Maranhão, Piauhy, Ceará e Rio Grande do Norte, a 15 de agosto – tal o nome evocativo da embarcação, chegou ao Recife, depois de haver coberto cerca de 1.000 milhas, deslocando quatro milhas por hora, em média.

Breve, havendo largado da Bahia há cerca de uma semana, estará ella singrando aguas de Cabo Frio, em demanda do porto da capital.

Como os raidmen que os procederam, estes filhos do Pará revelam qualidades magnificas, que destacam a sua aptidão para a vida do mar e as reservas invulgares de estoicismo e resistencia do seu caráter.

Mas a sua grande prova quer também dizer outra coisa: que o governo da União precisa de olhar com particular carinho para a incomparável situação que o Pará offerece, não só a sementeira de authenticos marujos que lá existe para a defesa da nossa terra, não só ás estupendas possibilidades da indústria da pesca marítima, senão, principalmente, á indústria da construção naval.

A viagem da 15 de agosto, quero assim interpreta-la, é um appello vehemente aos poderes federaes para que seja aproveitado, como merece, o Arsenal de Marinha de Belém, por onde tem passado competentíssimos officiaes da armada, que nunca cessaram de preconizar a solicitude da União por perfeito apparelhamento mecânico, tanto mais fácil quanto a gente da terra revela surprehendente pendor para a construcção naval e para a navegação.

A canoa esperada é um attestado convincente da extraordinária aptidão do paraense para esse gênero de actividade industrial. Pertence ella a um typo nitidamente regional; chamam-na “vigilenga”, corruptela humorística de vigiense, isto é, originaria de Vigia, velha cidade da zona paraense do “Salgado”.

Em Vigia, com effeito, floresceram outrora estaleiros de construcção de canôas e barcas de mais de um mastro, marcando um typo local de embarcações a vela. Com estas “vigilengas” alimentou-se o commercio do Salgado e das ilhas com a capital, assegurou-se o transporte de gado e borracha, foi-se mesmo ao extremo de estender as singradoras ousadas, com o sol e as estrellas por bussola, até á Guyana franceza.

Quem teria ensinado esses homens rudes e obscuros a construir solidamente canôa se barcos maiores, que sustentavam luctas da foz do Amazonas, na lida da pesca, ou na costa e contra-costa de Marajó, no commercio de “regatão”?

Não consta que se houvessem perdido technicos por aquellas zonas distantes. No entanto, a intuição da arte de construir para o mar, que esses nossos compatriotas revelam, é devéras impressionante, e o dever da Nação é, em seu próprio beneficio, aproveita-la.

O apparelhamento do Arsenal do Pará seria um serviço utilíssimo á Patria, lá existe o braço capaz, la existe a maior reserva florestal do paiz, lá existem todos os elementos necessários para reerguer uma indústria que traria para a Republica inestimáveis resultados.

Belem possue diversos estaleiros particulares que já têm construído grandes veleiros transoceânicos e constroem cascos de lanchas, reformam “gaiolas” e toda sorte de embarcações de pequena tonelagem, e onde até se faz, em pequena escala, a metalurgia do ferro.

Vigia, Santarem, Cametá, a seu turno, confirmam a regra de ser paraense apto, índole, aos trabalhos das industrias marítimas. A “vigilenga” que ahi vem, temerária casca de noz arremessada ao oceano, numa prova audaciosa de milhares de milhas do Pará ao Rio de Janeiro, dirá, com o testemunho eloquente do seu raid heroico, o que a minha penna não consegue graphar, o valor de uma gente que, para ser insuperável na acção, apenas aguarda que o paiz a veja com interesse menos estreito e a ajude com desvelo mais affectivo.

Alves de Souza.

 

PARAGENS DA CANOA VIGILENGA DE BELÉM AO RIO DE JANEIRO

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” NO MARANHÃO.

Carta recebida por distincto membro da colônia paraense aqui domiciliado, e escripta em fins de setembro, pelo arrojado piloto Flavio Moreira, que, acompanhado do seu colega João Nunes, emprehendeu o perigoso raid náutico Pará-Rio de Janeiro a bordo da “vigilenga 15 de Agosto”. Trouxe a noticia de que a viagem tem sido boa apezar de um pouco demorada.

Os arrojados pilotos paraenses achavam-se, naquella data, na barra da preguiça, entre os estados do Maranhão e Ceará, e Flavio Moreira, nessa carta diz que o “15 de Agosto” tem encontrado fortíssimos temporaes, aos quaes esse veleiro tem resistido valentemente.

Comunica ainda o destemido e valente marinheiro que, em vista de ter sido acossado por fortes ventos contrários, resolveu, justamente com seu arrojado companheiro, procurar um abrigo próximo, tendo, exclusivamente com o auxilio da sua carta de navegação, conseguido demandar aquella barra, quase desconhecida. O que causou admiração até aos próprios moradores dalli.

Os valentes marujos foram ali recebidos festivamente, embora sem serem esperados, tendo todos os moradores da villa de preguiça cumulando-os de gentileza e carinho.

Logo após o repouso de alguns dias os testemidos paraenses fizeram a “15 de Agosto” rumo ao mar, em busca do Ceará, onde pretendem chegar por estes dias e onde estão preparadas grandes festas.

Em Fortaleza os destemidos mareantes serão hospedes do governo do Estado.

A Vigilenga fez escala em Turyassu, São Luiz e Barreirinhas.

 

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” NO CEARÁ

Noticia de 18 de novembro de 1923

            Por noticias particulares recebidas ultimamente nesta capital, soubemos que a traqueteira “15 de Agosto” que, sob direcção dos pilotos Flavio Moreira e João Nunes, vae fazendo o raid náutico Belém-Rio de Janeiro, e que a 25 do mez recém-findo chegou triumphante a Camocim, após haver vencido fortes temporaes, partiu daquella cidade a 31 do referido mez com destino á Fortaleza, sendos os seus tripulantes arrojados, por ocasião da partida, alvo de significativa demonstração de apreço e sympathia por parte da respectiva população.

É provável que por estes dias, a vigilenga aporte com os seus destemidos tripulantes, á bella capital do Ceará.

Noticia de 20 de novembro de 1923

Telegrammas recebidos pelo nosso companheiro Chaves Martins, 1º secretario do “Gremio Paraense”. Dão a noticia de haverem chegado sabbado em Fortaleza os valentes pilotos paraenses Flavio Moreira e João Nunes, que estão fazendo o arriscado raid náutico de Belém ao Rio de Janeiro.

A vigilenga 15 de agosto tem resistido valentemente aos vários temporaes que a tem obrigado a arribar diversas vezes a logares desconhecidos e que só a pericia dos dois arrojados marinheiros conseguia descobrir, numa hora de perigo.

A 15 de Agosto partiu hontem, as 9 horas da manhã do Ceará com o rumo á Pernambuco, tendo assistido a sua partida, altas autoridades do Estado e da União.

Durante a permanência dos dois hábeis pilotos em Fortaleza, foram os mesmos cumulados de grandes gentilezas quer do governo do Estado, quer do hospitaleiro povo cearense, mostrando-se, ambos, encantados pelo modo como foram recebidos.

 

 

 

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” EM NATAL

Notícia de 21 de dezembro de 1923.

Os intrépidos pilotos paraenses que, num momento de arrojo e dedicação á sua terra, emprehenderam a arriscada travessia da bahia do Guajará á do Guanabara, em uma frágil embarcação á vela, typo especialmente paraense, acabam de vencer, heroicamente, mais uma etapa de seu perigoso raid.

É assim que, a 19 do corrente, pelas primeiras horas do dia Flavio Moreira e João Guimarães, os dois heroes dessa jornada perigosíssima, deixaram a capital rio-grandense do Norte, rumo do Rio, onde esperam fazer tremular o glorioso pavilhão paraense, depois de terem passado pela maior odyssea e pelos maiores perigos, luctando contra os elementos enfurecidos a procurar um abrigo onde podessem passar livres dos temporaes.

Não resta duvida que a vigilenga “15 de Agosto”, nome da embarcação em que os dois pilotos fazem o raid náutico Pará-Rio, chegará mais dia, menos dia, ao final da sua róta.

A directoria do “Gremio Paraense” recebeu hontem dos dois audazes “raidmen” a comunicação da sua partida de Natal, rumo a Recife, onde esperam chegar a 23.

Por esse motivo reúne hoje o “Gremio Paraense”, na sede do “flamengo”, ás 19 horas.

 

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” EM PERNAMBUCO

Notícia de 25 de dezembro de 1923

Com feliz viagem, de Natal até este porto, deu entrada ante-hontem, pelas 10 horas, a vigilenga “15 de Agosto”, que vem fazendo o raid Pará-Rio sob patrocínio do governo do Estado do Pará e do “Yole Club”.

A “15 de Agosto”, bizarramente embandeirada em arco, desde Olinda, veio ancorar em frente ao cães da avenida Martins de Barros, onde foi visitada pelo sr. Renato Medeiros, diretor da Policia Maritima, acompanhado do nosso companheiro Chaves Martins, 1º secretario do “Gremio Paraense”.

É um lindo barco, de 28 palmos de quilha, por 14 de bocca e 4 de pontal, tendo apenas um mastro, para avela grande e o gurupé para a bujarrona. É um typo de embarcação muito usada no Pará, principalmente pelos pescadores portugueses, que fazem longas viagens pela costa paraense. Traz em sua vela grande o escudo do “Yole Club”, grêmio de regatas filiado a Federação Paraense de Sports Nauticos, e do qual fazem parte os seus dois arrojados pilotos.

Apesar de terem os raidmen comunicado a sua chegada para 23, não era a “15 de Agosto” esperada nesse dia, dada as difficuldades com que os mesmos vêm luctando, para levar até ao fim o seu intento.

Por esse facto não teve a recepção que lhe estava preparada, não só pelo “Gremio Paraense”, como pelas colônias de pescadores aqui domiciliadas e clubs náuticos.

Recebidos pelos intrépidos e arrojados pilotos paraenses, Flavio Moreira e João Nunes, o nosso representante manteve com o primeiro delles, sob o commando de quem vem a vigilenga interessante palestra a respeito do arriscado “raid” que, com a graça dos céus, vão levando a effeito, com sucesso.

Disse-nos o intrépido marinheiro que a sua viagem tem sido cheia de perigos, tendo passado momentos horríveis, bem como entre o pharol de Sant’Anna e a barra das preguiças, onde foram obrigados a arribar devido forte temporal, pela prôa, e onde perderam a pequena balieira salva-vidas, que traziam para seu serviço.

Depois de terem ouvido a missa que o “Yole” mandou celebrar, a 15 de Agosto, em Belém, os valentes rapazes fizeram-se ao mar rumo de Rio de Janeiro, onde esperam chegar até fevereiro vindouro.

Até Recife fez a “15 de Agosto” escala pelos seguintes portos: Turyassu, São Luiz, Barreirinhos, Amarração, Camocim, Aracaju, Fortaleza, Capunga, Aracaty, Areia Branca e Natal, donde partiram no dia 19 do corrente.

Durante a sua perigosa viagem a “15 de Agosto” teve, por tres vezes, de luctar seriamente com os elementos enfurecidos.

A primeira, entre Sant’Anna e Preguiças; a segunda quando dali sahiram, e para onde foram obrigados a regressar por fortíssimo temporal, e a terceira, entre Capunga e Aracaty, pelo mesmo motivo.

Até este porto fez a “15 de Agosto”. 1.140 milhas.

Os arrojados pilotos paraenses são portadores de varias mensagens, entre as quaes uma para o sr. Governador do Estado, dos pernambucanos residentes no Pará, e outra pra esta folha.

O commandante da canôa que faz o “raid” é filho do estimável senhor Gilberto Moreira, gerente da usina do Cabo (cidade próximo de Recife), e sua virtuosa esposa, residentes nesta capital.

Além dos dois pilotos Flavio Moreira e João Nunes, conduz a “15 de Agosto” os seguintes tripulantes: Ulysses Gomes dos Santos, mestre Francisco Vilella dos Santos e Melchiades Pinheiro de Sant’Anna, marinheiros.

A “15 de Agosto”, quando pertencente ao sr. Dr. Siqueira Lemos, sob o nome de “Marina”, serviu muito á expedição “Junkers”, por occasião do naufrágio de um daquelles hydro-avião em Macapá.

Actualmente pertence ao governo do Pará, que cedeu ao “Yole Club”.

Custou 6 contos, approximadamente. Os seus pilotos pretendem passar aqui alguns dias, fazendo alguns reparos de que carece o pequeno barco.

No mesmo dia da chegada o piloto João Nunes, acompanhado do sr. Chaves Martins, esteve na Alfandega, Saude do Porto, Capitania e Policia Maritima dando entrada do seu barco.

 

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” EM MACEIÓ

Notícia de 18 de janeiro de 1924.

Os pilotos paraenses, que fazem o raid Pará-Rio, na vigilenga “15 de Agosto”, antes de partirem de Maceió para a Bahia, enviaram um despacho á família Machado sentimentando-a pelo luctuoso acontecimento e pediram ao nosso companheiro Chaves Martins, que os representasse nos funeraes (falecimento do capitão-tenente Olavo Machado, capitão do porto de Pernambuco).

 

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” NA BAHIA

Notícia de 25 de janeiro de 1924.

A vigilenga “15 de Agosto”, que vem fazendo o arrojado “raid” Belém-Rio, chegou ante-hontem, á tarde, a São Salvador.

Os audaciosos pilotos patrícios Flavio Moreira e João Nunes, que dirigem a pequena embarcação, receberam do povo e das autoridades bahianas as mais significativas homenagens.

Os referidos raidmen estão hospedados a bordo do cruzador nacional “José Bonifácio”, surto no porto daquella cidade, cuja tripulação os acolhe com accentuado carinho.

Fazemos os melhores votos para a “15 de Agosto” chegue, victoriosa, á etapa final de sua róta.

Cruzador nacional “José Bonifácio” onde os pescadores ficaram hospedados.

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” CHEGA A CABO FRIO NO RIO DE JANEIRO

(Jornal O Paiz)

“O Almirante Francisco de Barros Barreto, director dos portos e costas, recebeu hontem de Cabo Frio um telegramma do Sr. Antonio Novellino, que vem emprehendendo um raid na canoa 15 de agosto, de Belém, capital do Pará, ao nosso porto, sob os auspícios do Yole Club Paraense. Esse telegramma é o seguinte:

“Cabo Frio, 6 de fevereiro de 1924- A canoa 15 de agosto, que realiza o raid Belem-Rio, amanheceu aqui. Tripulação gozando saúde. Colônia pescadores Z-21 offereceu bravos pilotos jantar Hotel Brasil. Pretendem seguir hoje, á noite, para ahi. Saudações. ”

Ao capitão de fragata Frederico Villar, director do serviço de pesca e saneamento do litoral, foi expedido idêntico despacho telegráphico.

S. S. já providenciou para que os bravos raidmen tenham nesta capital enthusiastica recepção.

De Cabo Frio recebemos igualmente dos valorosos pilotos um telegramma annunciando-nos a sua chegada amanhã a esta capital”.

Cabo Frio-Rj, a vigilenga aportou antes de partir para o Rio em 1924. Acervo: rioclick.blogspot

VIGILENGA “15 DE AGOSTO” CHEGA AO RIO DE JANEIRO

(Jornal O Paiz)

“Depois de seis mezes de viagem, aportaram no Rio de Janeiro os paraenses que dirigiam e tripulavam a canoa 15 de agosto.

É a maior prova de navegação da America do Sul. Numa canoa de seis metros por dois e meio de largura, aquelles cinco homens se aventuraram a percorrer a costa brasileira, do Guajará a Guanabara.

Dois delles, o commandante e o immediato, vieram visitar-nos.

De estatura meã, brunidos pelo sol, pelle de tom branco, olhos pequenos, espertos e luzidios, atarracados e sólidos, sente-se em cada um a energia condensada.

O que mais surprehende é que o commandante, alegre e parlador, não conta façanhas: para elle o feito não tem importância.

Já Julio Verne fala na “Vigilenga”. Os filhos da cidade de Vigia, no Salgado são todos marítimos de tendência e inclinação. Mas, em geral, circumnavegam as costas paraenses.

A 15 de agosto quis realizar mais largo feito: e foi com excepcional bravura que o concluiu, attestando, mais uma vez, a resistência e a tenacidade que caracterizam a gente do norte”.

Antiga baia da Guanabara por onde a vigilenga navegou em 1924.Acervo: Rioantigo

Vigilenga na doca do mercado velho do Rio de Janeiro e os tripulantes em 1924. Acervo: O Jornal-RJ

Notícia do jornal A Província de Recife de 12 de fevereiro de 1924

RIO, 9. – Os jornaes daqui dedicam longos noticiários sobre o “raid” da vigilenga “15 de Agosto”.

Os pilotos são associados do “Yole Club” na capital do Pará e são os seguintes: João Nunes, Flavio Moreira, Ulysses Gomes dos Santos (mestres); Francisco Vilella Barbosa e Melchiades Pinheiro Santa Rosa (marinheiros).

Um delles fez o seguinte relato: “Deixando Belém tocámos primeiramente num pequeno porto próximo, seguindo depois para Mosqueiro, onde ancorámos.

Dahi partimos para Vigia, depois para São Caetano de Odivelas, Turiassu e Maranhão.

Em São Luiz demos entrada no dia 7 de setembro e no dia 13 seguimos com destino á Amarração.

No dia 15 apanhámos forte temporal que nos obrigou a permanecer 12 horas ao sabôr das ondas em perigo de vida, pois a cada momento a embarcação ameaçava sossobrar. Só a grande fé que nos dominava e o forte desejo que tínhamos de ver realizado o nosso desideratum nos deram animo bastante para lutar contra os vagalhões que cobriam a todo o instante a valente “15 de Agosto”.

Esse contra tempo, que se verificou ao sul do pharol de Sant’Anna, nos fez perder uma balieira e nos obrigou a arribar para a barra da Preguiça a 17 de setembro. Fomos obrigados a permanecer neste logar 29 dias, tal era o tempo que fazia e tal era o forte sudoeste que soprava como um furacão.

No dia 16 de outubro finalmente pudemos deixar a barra da Preguiça em rumo de Amarração, onde entrámos a 23.

A 25 proseguimos para Camocim aqui chegando a 27. Partimos a 31 para Fortaleza, que alcançamos a 11 de novembro. Deste ultimo porto so sahimos a 19 em rumo de Capanga, onde chegámos no dia immediato. Nesta colônia de pesca, a melhor de todas do nosso vasto litoral, a recepção que tivemos calou fundo no nosso espirito tamanhas foram as gentilezas sem conta de que fomos alvo.

No dia 23 deixamos Capanga, de cujos pescadores trouxemos uma mensagem para o commandante Frederico Villar.

Devido o mau tempo fómos ainda obrigados a arribar para Aracaty, não obstante desejámos alcançar directamente Areia Branca, onde só chegamos a 9 de dezembro, quando conseguimos vencer o mar grosso. A 11 do mesmo mez seguimos directamente para Natal chegando a 17. Daqui partimos a 19 em rumo de Recife, capital que alcançamos a 23.

No dia 15 de janeiro demandámos em rumo de Alagoas, vencendo essa etapa em dois dias; a 18 seguimos para São Salvador, porto que aportamos a 20 de janeiro.

A 3 de fevereiro seguimos directamente para Cabo Frio, onde chegámos levantamos ferro para o Rio, onde pretendemos chegar hontem, no entanto devido a forte calmaria, então reinante, fomos obrigados a permanecer longas horas, completamente estacionados em alto mar.

 

HOMENAGEM FUTBOLISTICA AOS PESCADORES

Matéria do jornal “O Paiz”.

No campo do Andarahy A. C., á rua Prefeito Serzedello, realiza-se depois de amanhã, uma grande festa sportiva promovida pelo Americano F. C., em homenagem aos heroes da “Vigilenga 15 de agosto”.

A festa promete grande sucesso e o programa é o seguinte:

1ª prova – Em homenagem aos bravos pilotos da “Vigilenga 15 de agosto”, e dedicada ao Sr. Ministro da marinha, almirante Alexandrino de Alencar. Partida: Americano F. C. X Willegagnon F. C.

Mapa temático do raid Belém – Rio de Janeiro, peroduzido pelo geógrafo Ailson dos Santos cardoso, mais conhecido na Vigia como Ney.

DETALHE DA CANOA VIGILENGA “QUINZE DE AGOSTO”

Publicado no jornal “O Paiz” os detalhes da viagem da canoa vigilenga “15 de Agosto”, de Belém ao Rio de Janeiro, que partiu da capital paraense em 15 de agosto de 1923 e chegou ao Rio de Janeiro em 06 de fevereiro de 1924.

(O Paiz)

“A proposito desta memorável façanha náutica, escreve-nos o comandante Joaquim Sarmanho:

É necessário conhecer a estrutura da vigilenga, a pequena, mas elegante embarcação em que cinco arrojados e valentes marujos paraenses realizaram o raid á vela, desde a bahia do Guajará até a nossa bahia de Guanabara, para que bem se possa aquilatar esse feito heroico.

Chama-se vigilenga ao typo de canoas construídas na cidade e município de Vigia, onde existem verdadeiros estaleiros de construção de barcos, canoas e igarités, dirigidos por mestres de obras, que não frequentaram nunca nenhuma escola naval. Há vigilengas de um e dois mastros e são reputadas como as mais veleiras de todo o Estado do Pará.

A “Quinze de agosto” é de um só mastro, de acordo com as suas reduzidas dimensões, o que ainda mais augmenta o valor dessa audaciosa tentativa, realizada com pericia admirável em um percurso de 2.329 milhas de costa bravia.

A resistência opposta ao rigor das interperies durante a viagem por esta embarcação, que foi construída para a navegação fluvial e não para a costa do oceano, se deve, unicamente, á competência dos dois pilotos dirigentes, dos seus três homens de tripulação, e ainda, pela excellente qualidade das madeiras com as quaes foi construída.

Pelas suas dimensões, bem se póde imaginar a sua capacidade:

Comprimento da quilha.........28 palmos (7 metros)

Boca......................................14 palmos (3,5 metros)

Pontal....................................4 ¹/2 palmos (1,12 metros)

A quilha e o casco são de “tamaquaré”; as falcas de sapucaia e de mahuba, iguaes em resistência; os braços são de piquiá e cumarú; os dormentes são de páo d’arco; as escôas de cedro; o convés é todo de páo amarelo; o cadastro é de macacahuba; o leme, idem; a cana do leme é de acapu; o gaviete é de macahuba; a bita de acapu; o mastro de jacarehuba; o mastaréo de cuaruba; o páo de giba de anany; a carangueija de taxy; a retranca, idem; cambotas da camarinha, cedro; assoalho e anteparas de cedro amarelo.

A confiança na construção resistente da “Quinze de agosto” enchia de coragem os seus dirigentes.

A vigilenga possuía no centro uma pequena tolda onde estão armados dormitórios e a cozinha, tudo em ponto diminuto. O fogão é egual aos usados pelos caboclos do Pará: uma lata de kerozene com furos e a metade de seu volume cheio de barro, onde são acondicionados os gravetos que alimentam o fogo.

Durante todo tempo que durou a viagem, os cinco marujos se alimentavam com comidas feitas no referido fogão e também com conservas que adquiriam nos portos por que passavam.

Na época em que iniciaram o raid, os ventos reinantes na costa comprehendida entre o pharol da Ponta da Atalaya, no Pará, até o pharol do Cabo de S. Roque, no Rio Grande do Norte, são do quadrante SE, frescos durante o dia e com fortes rajadas de quando em quando. Estes ventos, para as embarcações á vela que se dirigem para o sul, nessa zona da costa, são contrários, obrigando a navegar bordejando, sem ganhar, em cada braçada, grande avanço para barlavento, mas também contra as correntes marinhas e as ondas que se seguem a direcção daquelle.

Esse estado de coisas, apenas em certas madrugadas se modifica para melhor, quando o vento, mudando de direcção, sopra de cima da terra, pelo que é chamado terral. Então, o navegante aproveita essa providencial monção, e, a todo pano, ganha caminho para o seu destino, em condições menos penosas.

Outro inimigo do navegador nessas latitudes é a “calmaria” a qual muitas vezes deixa a embarcação á mercê somente das correntes marinhas que as impellem ou arrastam para trás.

Em um temporal que arrastaram ao sul do pharol de Sant’Anna, na costa do Maranhão, perderam uma pequena balieira-salvavidas, a única que tinham para o caso de naufrágio, também duas canas de leme, de sobressalente. Acossados por esse temporal, foram obrigados a arribar a barra de preguiças.

Na altura de Aracaty, na costa do Ceará, correndo com outro temporal foi obrigada a “Quinze de agosto” a procurar abrigo no porto dessa cidade.

Até montarem o Cabo Branco, a viagem lhes foi muito tormentosa e cheia de trabalhos. De lá para cá, como a costa se dirige mais para o occidente, offerecendo mais largura na volta de terra, a viagem foi mais ligeira e menos penosa.

Aqui chegados, encontraram braços e corações amigos, que os receberam, com jubilo e carinho: foram, por parte da colônia paraense, o eminente senador Lauro Sodré, e por parte do governo do diguissimo Dr. Arthur Bernardes, o almirante Ministro da marinha.

Não podemos nem devemos olvidar o nome do prestimoso e digno capitão de fragata Frederico Villar, director da inspectoria de pesca, que, com o seu incontestável prestigio pessoal e as qualidades altruísticas da sua grande alma, quiz saudar pessoalmente e amparar, como saudou e amparou os arrojados e heroicos marujos, considerando-os como irmãos nas afanosas lides do mar.

O venerado e querido almirante Alexandrino, que só viveu e vive ainda para as glorias que o mar pode offerecer a quem sempre lhe dedicou o melhor da sua existência, da sua vida, não tem poupado esforços para suavizar, nesta capital, a situação desse punhado de valentes marujos da nossa frota mercante.

O almirante Alexandrino bem sabe e não se esquece desta grande verdade: que todos os marinheiros que assentam praça nos navios da armada, saídos da Escola de Aprendizes Marinheiros do Pará, são competentes, disciplinados e amigos da ordem.

Uma idéa triste, porém, nesta altura, nos assalta! É a idéa de que não vá acontecer aos cinco heroes desta gloriosa viagem o que aconteceu já ao nosso glorioso patrício, o heroico aviador Pinto Martins, que realizou, com grande êxito, o raid Nova York – Rio de Janeiro.

Que amanhã também estes não caiam no baratho do esquecimento impatriótico.

Os provectos pilotos João Nunes e Flavio Moreira, bem como os três marujos da guarnição da vigilenga “Quinze de agosto”, devem ser sempre lembrados na historia dos grandes acontecimentos náuticos do Brasil. ”

 

VISITA DOS PESCADORES NO DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO

No dia 19 de fevereiro de 1924, foi publicado no DOU-4977, a visita dos pescadores que realizaram o raid Belém-Rio de Janeiro:

                “O Sr. Presidente, da Republica recebeu no Palacio Rio Negro, os Srs. Flavio Moreira e João Nunes commandante e piloto da vigilenga “15 de agosto”, que acaba de chegar ao Rio de Janeiro, vinda da capital do Estado do Pará. - Os referidos jangadeiros foram apresentados ao Sr. Dr. Arthur Bernardes, Presidente da República, pelos Srs. Deputado Dyonisio Bentes, representante daquele Estado na Camara, e o comandante Frederico Villar, director do Serviço de Pesca, que foram recebidos em audiencia pelo chefe do Estado”.

 

MISSA EM AÇÃO DE GRAÇAS AOS PESCADORES

O jornal “Correio da Manhã” do Rio de Janeiro, em 29 de fevereiro de 1924 publicou a reportagem da missa em ação de graças aos pescadores vigilengos:

Os intrépidos marujos da Vigilenga “Quinze de Agosto”

Revestiu-se de commovente solennidade a missa em acção de graças que o Patronato Nacional dos Pescadores mandou rezar, hontem na matriz de São Francisco Xavier, em acção de graças pelo êxito do raid que os intrépidos marujos da vigilenga “Quinze de Agosto” levaram a effeito do Pará ao Rio.

A cerimonia religiosa teve grande e selecta assistência e o concurso do corpo coral de Santa Cecilia, que, sob a direcção do maestro Strut, executou trechos sacros de Perosi e Viadana.

A parte mais tocante da cerimonia foi a oração pronunciada ao Evangelho pelo conego Francisco Mac-Dowell.

O ilustre orador sacro, dissertando sobre o thema: “Due in altum”, exaltou o valor dos marinheiros paraenses que, em frágil embarcação, guiados pela fé, dominados pela esperança e crentes em um Poder Supremo, que nunca abandona aquelles que lhe confiam o êxito de emprehendimentos nobres, se aventuram á longa e perigosa travessia de Belém do Pará à Guanabara.

“Due in altum” (para o alto) - disse o conego Mac-Dowell. Fóra essa a divisa com que os marinheiros paraenses se haviam lançados ao mar mysterioso, ora bravio como o leão ferido, ora calmo como o carneiro, mas sempre cheio de abysmos, tempestades, de traições, de carneiradas.

É, terminado, o orador exclamou: “O vosso grito foi ouvido por todos os brasileiros e todos nós estamos dispostos a levantar para o Alto, para o heroísmo, para a gloria, o Brasil, a pátria estremecida dos nossos corações, não obstante todas as difficuldades e empecilhos postos pelos seus próprios filhos, á vocação a que está fadado”.

 

GREMIO PARAENSE FAZ HOMENAGEM AOS TRIPULANTES DO “15 DE AGOSTO”.

            Jornal “Correio da Manhã”

            No dia 9 de março o Gremio Paraense promoveu uma recepção aos heroicos pilotos e marinheiros da vigilenga “Quinze de Agosto”, que fez o raid Belém-Rio. A recepção teve logar, hontem no salão nobre do club de Engenharia, lindamente ornamentado de flores naturaes, vendo-se atrás da mesa, desfraldado, o pavilhão paraense.

            Presidiu a sessão o senador Lauro Sodré, que tinha aos seus lados os Drs. Aarão Reis, Catramby, Carlos Seidi e commandantes. Carlos de Carvalho e Frederico Villar. Falou saudando os tripulantes da vigilenga o engenheiro José Agostinho dos Reis, que em palavras entusiásticas enalteceu feito da vigilenga, cuja tripulação ali se encontrava.

Falou em seguida o Sr. Flavio Moreira que fez entrega ao Sr. Lauro Sodré e ao “leader” da bancada, na câmara, das mensagens de que foi portador, sendo essa cerimonia coroada de applausos, pelos presentes quasi todos membros da colonia paraense. O orador fez uma descripção da viagem, cujos episódios salientou e que demonstrou o valor e energia daquelles cinco brasileiros.

Encerrando a cessão, o senador Lauro Sodré agradeceu ao comparecimento de todos áquella homenagem aos seus dignos conterrâneos.

No saguão tocou uma banda de musica militar. 

 

ENTREGA DA VIGILENGA “15 DE AGOSTO” AOS ESCOTEIROS DO MAR

No dia 16 de março de 1924, as 4:30 horas da tarde, realizou-se nas docas do Mercado Velho, a solenidade da entrega da vigilenga “Quinze de Agosto”, em que os valentes nortistas fizeram o estupendo raid do Pará ao Rio, aos escoteiros do mar.

            Usou da palavra o commandante da embarcação o Sr. Flavio Moreira, que produziu uma bella allocução. Findo a mesma, os pequenos escoteiros arriaram as bandeiras do barco ao som do hynno Nacional e as substituíram pelo pavilhão nacional.

Respondeu, então, agradecendo, o commandantes Benjamim Sodré, presidente da Federação dos Escoteiros do Mar.

            Em seguida foi lida a acta da entrega da vigilenga, sendo assignada pelos presentes.

Doca do mercado velho no Rio de Janeiro

A VOLTA PARA BELÉM

Jornal “Correio da Manhã”

Os destemidos caboclos paraenses, que vieram demonstrar, com o raid Belém-Rio, na vigilenga “Quinze de Agosto”, não terem desapparecido totalmente as qualidades de resistência, coragem, tenacidade e intrepidez de nossa raça, tiveram de voltar á terra natal com passagem de prôa, num dos paquetes do Loyd Brasileiro. Foi apenas o que lograram obter do governo, assim mesmo graças aos bons officios do Gemio Paraense, os heroicos patrícios do extremo norte. Se não Fóra a intervenção de um official da Armada, bem quisto da situação, até o commandante e o piloto da “Quinze de Agosto” ficaram condemnados a regressar arranchados na gamella da próa e expostos ao frio despertar diário, sob a acção inclemente das mangueiras de bordo.

É natural que assim acontecesse. Dizem que o Pará está em precárias condições financeiras e a situação de sua representação aqui também não é lá para que digamos... O Sr. Dionysio é clinico e tem as castanhas de Obidos; o sr. Eurico, a advocacia e o Banco do Pará; o sr. Lemos idem, quanto á primeira vantagem, além dos remanescentes de seu tio; o sr. Prado, um dinheirinho modesto, empregado em rendosas industrias; o sr. Miranda, fazendas em Marajó e sociedade no mercado do ferro; o sr. Lyra, duas heranças consecutivas, consolidadas em prédios na zona grandemente valorizada de Copacabana e em acções de bancos e companhias.

Se essa gente, mesmo na penúria em que se acha, tomasse a humanitária iniciativa em favor dos arrojados caboclos, estes poderiam, pelo menos, voltar como passageiros de segunda classe, sofrivelmente compensados dos dias e das tormentosas noites passadas em pleno mar, com o intuito unico de affirmarem as tradições da raça brasileira. 

 

POEMAS PARA AS VIGILENGAS E VIGILENGOS

            Transcrevemos na íntegra os poemas de Balbino Massaroca, publicados no jornal “O Paiz” em homenagem ao feito histórico do raid Belém-Rio de Janeiro e que enche de orgulho os corações do povo Vigiense.

 

O trem de ferro de cendras, na lenga-lenga. É muito menos difícil do que a “Vigilenga”.

Muitíssimo menos!

Mas muitíssimo menos!

A “Vigilenga” vem da borracha, vem do Pará.

Vem cheinha de tupinambá.

Ah!

E como ella encolhe e espicha, mas não racha!

Passou em Cabo Frio, e num momento.

O cabo virou sargento.

E no andar em que as divisas vão.

Amanhã de madrugada o cabo é capitão.

 Passou em Cabo Frio e o cabo esquentou

E a “Vigilenga” chegou.

E a “Vigilenga” não chegou.

Chegar ou não chegar –diz-se no hamleto -

Quando a emenda não é pior que o soneto.

Chegou.

Ancoroa.

Desancoroa.

Ré-ré-ré-ró-ré-ré – a ancora fazia.

- Nossa Senhora dos Navegantes -  o piloto dizia.

“Ó chico malandro puxa ahí a bujarrona!

Mas o chico estava todo fagueiro na sanfona...

Com um ar de siry gaita!

E o piloto bifou:  - larga essa gaita!

Chico largou. Então

A “Vigilenga” tufou a vela e meteu a proa no fundão.

- Adeus, Cabo Frio, porrete quente.

“Que tanto bem cá por dentro faz na tripinha da gente!

 

 

 

POEMAS SOBRE AS VIGILENGAS QUANDO PASSOU NA CIDADE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO E CABO FRIO-RJ, PUBLICADO NO JORNAL O PAIZ EM 1924.

 

A Abner Mourão, o irreductivel adversário do futurismo, e a Paulo Silveira, o irresistível interprete de Apollinaira, este poema de exegese intuspectiva, para que se reconciliem tão claras e bem-fadadas almas.

 

Sob a tormenta, sob o furacachorro, a tempestade medonha.

Sob o pampeiro.

Radiante solarenga.

Entra a “Vigilenga”.

Nesta muita heroica e leal cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro!

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Ruque-te! Ruque-te! Ruque-te!

Curri-curri-curri-curri-curri!

A vela sobe.

O vento.

- Sonoridade vácua – é um derramamento

Cerebral de um universo desmollecularizado!

O seu assobio protophonico, desesperado,

Foooooo! Fooooou! Uaaá! Uaaá!

Desviriliza as enxarcias e o gurupés!

Onde o piloto fleugmaticamente lava os pés!

Um tubarão – esbirro de nepinno – vai passando:

- Ai que cheirinho de pé de quem está se lavando!

“É um cheirinho de pé todo especial!

“Não faz mal!

- Se te péga! E a sua guela demesuradamente aberta.

Lembrava ao tempo da guerra uma grossa bertha.

Porque entre um tubarão

E um alemão

O símile é tão igual que não sei se lhes diga:

O alemão come com a boca e o tubarão com a barriga!

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Súbito, o firmamento se enche de trevas pávidas!

Passam vulcões de nuvens grávidas,

Baixo, roçando o mastaréu da “Vigilenga”,

Que na cova do mar resiste, meio capenga,

Mas vai resistindo, vai correndo,

Vai resistindo,

Vai correndo,

Correndo,

Resistindo,

Rindo,

Tindo!

Fió-fiá-fiú!

Zú-zú-zú-zú-quitibru-prú!

(É o vento, alma de cão: aqui fica a explicação).

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Ó Chico, bóia,

Traze a bóia!

Berra o piloto e se some,

Com fome.

E sob o temporal cyclónico a panela,

Canta com a alma de sinderella,

No suplico de tântalo, sob a lei de Salomão.

E o piloto faminto: - O Chico já ferveu o feijão!

Trrrroooó – Tchepein! Terrrroooô- Tchepein!

É o trovão além!

- Chico recolhe a isca!

Vai cair faísca!

E a chuva chove,

- Tira a prova dos nove,

No morro da viúva,

Chove chuva,

Chuva chove,

Chuva,

Chove

E se espalha,

Na cordoalha

E escorre,

E a chuva morre,

No mar e todo elle como se tivesse tomado um...pifão.

 

ENTREGA DE MEDALHAS AOS VIGILENGOS.

O JORNAL “O Paiz” publicou no dia 20 de novembro de 1926, a matéria do dia da bandeira:

            “PARÁ, 19 (Especial para O PAIZ) – A festa promovida pelo governador do Estado nas praças do Sport Club e do Club do Remo, em commemoração á data da bandeira excedeu a expectativa, tal foi o brilho e enthusiasmo de que ao revestiu. (...)

            A seguir fez a distribuição dos premios D. Pedro ll e Dr. Arthur Bernardes aos alumnos maiores que obtiveram as melhores notas nos exames finaes; e medalhas aos emprehendedores do raid Belém – Rio de Janeiro, na canôa “Quinze de Agosto” por ocasião do centenario da independência.

 

Yole Club do Pará, da capital Belém. O clube foi fundado com o intuito da prática dos esportes aquáticos, sobretudo, o remo, foi fundado em 30 de novembro de 1916. A sua Sede ficava localizada na Rua Siqueira Mendes, 30, bairro da Cidade Velha – Belém (PA). O clube foi responsável pela maior feito náutico da América do Sul realizando em uma canoa vigilenga “15 de Agosto” o Raid Belém-Rio de Janeiro em 1923. (Fonte: “O Jornal” de São Luiz – Ma)