

O PORTAL DA MEMÓRIA VIGIENSE


Música e Dança


ASSOCIADA AOS PRINCÍPIOS da linguagem, a mú-sica é uma cultura universal. A dança é uma forma de expressão através de movimentos corporais. A persussão é a forma mais antiga de execução musical. Os primeiros instrumentos foram feitos com materiais da natureza e evoluíram conforme se descobria novas combinações e efeitos sonoros. A musicalidade e a dança em Vigia têm raízes ligadas às culturas indígenas e africanas, através dos batuques ritualísticos ou recreativos, ainda hoje presentes nos terreiros onde se praticam religiões afro-brasileiras, nos eventos festivos com participação de grupos de carimbó, nas marujadas e nas rodas dos grupos de capoeira, com sólida representação de resistência e dos legados africanos, desempenhando importante papel social com a juventude. A introdução de outras vertentes musicais é atribuída às atividades educacionais das ordens missionárias do século XVIII. Os jesuítas ministravam no colégio aulas de canto e iniciações instrumentais. As bandas de música, como um dos mais simbó-licos patrimônios culturais de Vigia, vêm das tradições de atos religiosos e cívicos, sendo citada, em 1823, no relatório de Adesão da Vigia à Independência, a participação de bandas nas comemorações. Aparecem pelo menos quatro bandas na segunda metade do século XIX, entre elas a "31 de Agosto" e, em 1915, a "União Vigiense", seguidas da formação de outros clubes musicais na cidade e nas vilas, sendo atração típica de festas, procissões, desfiles, alvora-das, cortejos, concertos e fazendo parte da vivência comunitária, projetando músicos de prestígio, inclu-sive no cenário internacional.


Festas e folguedos em Vigia
Mastro de Nossa Senhora da Conceição em Vigia e no interior

Até o século XIX as festividades religiosa tradicionais de Vigia, como as do Divino Espirito Santo e de N. Srª da Imaculada Conceição, eram realizadas pelas irmandades. No início do século XX as famílias tradicionais da cidade passaram a tomar conta dos tais festejos. Um dos grandes símbolos dessa devoção era a Procissão do Mastro. Um troco de arvore reta, enfeitada de folhas e frutas, conduzida pelas ruas e acompanhada de banda de música. No revezamento dos fies que carregam ornamento, a ladainha cantada, brincadeiras, carimbó, juízes de bandeiras e a imagem da santa, acontece a “levantação” e “derrubação” do mastro.
Essa tradição típica de nossa região é retratada na obra do artista plástico vigilengo Antonio Coutinho – A procissão do Mastro/ óleo sobre tela de 1997.








Obra do Artista Plástico Antonio Coutinho (Nono)
O Mastro também celebrado em várias localidade de Vigia.
Levantação do Mastro na Localidade de Porto Salvo - Vigia, PA
COMO PARTE do calendário festivo vigiense, as noites de Natal, em tempos idos, eram animadas pelas Pastorinhas. A Epifania do Senhor e as cantorias da festa dos Santos Reis davam boas-vindas ao novo ano. Havia os tradidionais bois-bumbá e cordões de pássaros, com seus personagens de roupas colori-das e brilhosas nas rodas de teatro de rua, com performances que traziam para a cidade a realidade e os mistérios do povo rural. As levantações e derrubações de mastros eram uma clara mistura de sa-grado e profano, como um culto a dinvidades regado a aguardente e carim-bó, o que também ocorria na festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores. As festas de rua alegravam as camadas populares

Cordões de Pássaros e de Bichos e Boi Bumbá


Segundo o historiador vigiense Paulo Cordeiro 0s bumbás e cordões de Vigia abrange a presença desses folguedos populares na cidade ao longo do século XX, acompanhando as formas de apresentação, a espacialidade dos festejos e a repercussão social dessas práticas festivas populares. A pesquisa vertida em texto assume um aspecto híbrido, ao ligar o levantamento histórico-documental com um trabalho de campo bem conduzido. O resultado é um excelente painel das festas populares vigienses: com os grupos de boi bumbá que percorriam as ruas da cidade ou que se apresentavam na forma de comédia, com os bumbás e cordões de pássaro provenientes da zona rural, com a emoção dos espectadores, dentre outras coisas. Praças, ruas, quintais de residências são apresentados como palco das apresentações, recantos dotados de conteúdos simbólicos ligados a estes eventos. Para exibir esse rico cenário, Paulo Cordeiro visitou localidades rurais como Itapuá, Porto Salvo, Guajará, , Maracajó e Fazenda; percorreu registros escritos de brincantes ou donos das “brincadeiras”; vasculhou fotos antigas de particulares e notícias de jornais vigienses publicados ao longo do século XX. O estudo histórico-antropológico desses folguedos, considerando a realidade amazônica, enseja formas inovadoras de compreender os sentidos das relações de poder e das trocas, conflitos e alianças entre os diversos sujeitos sociais envolvidos ou que gravitam em torno dos eventos festivos.O folclorista Bruno de Menezes, em um estudo clássico1 de 1972, define o Boi Bumbá paraense como variante do bumba-meu-boi nordestino e como folclore junino orientado para o teatro popular. Suas matrizes dramáticas estariam no patriarcalismo colonial2, denotando a proveniência rural em grande medida associada ao universo da escravidão. Para Menezes, o bumbá é uma espécie de sátira do trabalho rural. A hilariedade da apresentação estaria situada no trágico dos conflitos subjacentes entre senhores e a população rural subordinada, aí incluído o contingente escravizado. Desde fins do século XIX, o bumbá de origem rural se estabeleceu de forma pioneira na periferia das cidades paraenses, acompanhando a difusão da prática da capoeiragem. Sua motivação principal estaria na dramatização lúdico-artística da “luta de classes” entre senhores versus índios e negros escravizados3, agora encenada em outro contexto sócio-histórico. Os cordões de pássaro e de bichos (de onças, peixes, camarão, caranguejos, etc.) são também de origem rural e tiveram suas primeiras menções na imprensa paraense datadas de meados do século XIX. São definidos por Piñon4 como “grupos sociais folclóricos” formados por famílias nucleares e seus agregados. Os cordões têm como cerne enredos românticos e melodramáticos, em que a trama gira em torno da morte e ressurreição de um animal (como no bumbá)5. De aspecto fundamentalmente teatral (com elementos como palco, figurino, músicos, etc.) os “pássaros” e “bichos” são dotados de forte comicidade assentada na “matutagem”, isto é, em cenas engraçadas de matutos que são o ponto alto de empolgação da platéia. As desigualdades sociais, reconfiguradas no Brasil e na Amazônia contemporânea, continuariam a servir de “câmara de eco” para à sátira das toadas, das comédias e das fábulas dos cordões. O domínio popular da arte de festejar se revela, neste estudo, com a proeminência de personagens das camadas populares na organização dos bumbás e dos cordões e com as estratégias de auto financiamento praticadas pelos brincantes. Ao mesmo tempo, brincantes e organizadores aprendem a lidar com os meios burocráticos para contar com o apoio dos gestores públicos e estabelecem alianças com empresários locais que possam contribuir com as apresentações. É esta vivacidade, esta força dinâmica das manifestações culturais populares vigienses.
Fontes consultadas:
- CORDEIRO, Paulo. Batuques a Santa Bárbara. Vigia: Ed. Ind., 2014.
- CORDEIRO, Paulo. Centenário da Banda Musical União Vigiense. Vigia: Ed. Ind., 2016.
- LOBO, Raul. Vigialma Nossa. Vigia: Ed. Indep. 2007