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Orgulhosamente Vigiense

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A história trágica da Cabanagem ocorrida em Vigia

No início do século existia na Vigia, um casarão que era moradia e local de trabalho do Juiz de Paz do município, João de Sousa Ataíde, e armazenava as armas e munições da Guarda Municipal da Vigia. Este foi denominado Trem de Guerra. No período da Cabanagem, quando o movimento se espalhou pelo interior do Estado do Pará, a então Vila de Vigia foi invadida pelos revoltosos em 1835. Durante o primeiro assalto à Vila da Vigia, os cabanos dominaram o Paço Municipal, onde funcionava o Senado da Câmara, obrigando as autoridades legalistas vigienses a se refugiarem-se no Trem de Guerra, também conhecido como Casa-Quartel. Esse prédio foi onde o movimento cabano operou o mais violento e sangrento episódio da Cabanagem na Vila da Vigia, quando foram assassinados todos os moradores e os militares vigienses que se encontravam aquartelados no Trem de Guerra. Construído em taipa e cobertura em telha de barro, o prédio, com acesso pela rua de Nazaré e pela rua Visconde de Souza Franco, atual Rua Noêmia Belém, pertenceu anteriormente a Inocêncio Holanda. Mais tarde foi vendido a Jerônimo Magno Monteiro que o desmembrou em duas edificações. A parte localizada à rua de Nazaré foi vendida à Prefeitura. Na década de 90, do século XX, em razão do alto grau de deterioração, foi totalmente demolido e reconstruído com materiais contemporâneos, em alvenaria e tijolo, mantendo, parcialmente, as características arquitetônicas externas originais do Antigo Trem de Guerra.

Acompanhe aqui o relato dramático e emocionante do Barão de Guajará com riqueza de detalhes de como ocorreu os 1º e 2º ataques cabanos em Vigia.

1º ATAQUE CABANO À VILA DE VIGIA  (ATAQUES AO TREM E PAÇO MUNICIPAL)

                No ano de 1835 a Vigia era simples Vila, mas pessoas asseguram que o seu estado nesse tempo era mais próspero que o atual; havia mais indústria, mais comércio e mais capitais, pelo que se aguçava a cobiça dos facciosos cabanos na esperança de pilhagem farta e proveitosa. E próximo como se achava da capital, lá iam os acontecimentos repercutir com incrível celeridade agitando ora mais ora menos a população. Não era pois estranhar que fosse a primeira vítima dos anarquistas.

                Não havia muito tempo, que ai se tinha tentando perturbar a ordem política, a pretexto da notícia que se espalhara na capital ter Lobo de Sousa suspendido as garantias constitucionais, sendo frustrado o plano pela atitude energética da câmara municipal, além disso, meses depois deram-se fatos mais graves que os facciosos não esquecem, nem puderam desculpar.

                Nos últimos dias de maio de 1835, em noite escura e chuvosa, um grupo de homens armados de terçados e capitaneados do Bento Ferrão, morador do Igarapé do Maracajó, já tinha assaltado a Vila e prendendo a guarda do Trem de Guerra, que era na casa do Juiz de Paz João de Sousa Ataíde, sito na então rua São Bernardo. Apoderando-se de armamentos e munição, os revoltosos tacaram a rebate, e percorreram as ruas no meio de vivas frenéticos dados ao governo de Vinagre e aos seus mais dedicados agentes da capital.

                Os secretários do facciosos cabanos que os havia na Vila como em toda parte despertaram ao som dos gritos, e vieram logo engrossar o abuso dos invasores. Ao amanhecer do dia, Ferrão obrigou a câmara municipal a reunir-se com todos os juízes de paz, e marchou com todas as peças que encontrou no Trem de Guerra, para o paço da mesma e lá mandando carreá-las, com morrões acessos fez pontaria para a sala onde se achava os vereadores reunidos em sessão, e entrou para declarar que a sua intenção era simplesmente depor as autoridades existentes e substituí-las por outras que apoiassem o governo de Vinagre.

                A câmara municipal, vendo-se assim coacta e sem meio nenhum de resistência, retirou-se do paço, deixando-o só  entre os seus comparsas com plena liberdade de ação: como era de esperar ele fez as nomeações que quis, solenizou-as com as ostentações que lhe coube, e considerou-se arbitro dos destinos da Vila de Vigia, sem nenhum perseguidor que lhe perturbasse o entusiasmo da vitória.

                As autoridades demitidas no dia seguinte recorreram ao comandante do Batalhão de guardas nacionais que era o tenente Raimundo Antônio de Sousa Álvares. Estava este em seu sítio no Mojuim, onde passava a maior parte do ano, ocupado em trabalhos de lavoura. Ali o foram procurar.   

                Álvares tinha marcado o dia 6 de junho para a sua entrada na Vila, e convinha conversar o inimigo na doce ilusão que estava.

           Ferrão intitulava tenente-coronel, e fazia-se dar todas as honras deste posto. É próprio dos néscios julgarem-se engrandecidos como ele puna em relevo esta verdade moral, um rufo de tambor um d’armas que receia ao passar pela guarda e cortesia de chapéu caído, que qualquer transeunte lhe fazia na rua ao encontra-lo, a continência do soldado perfilado, todas as oscitações, enfim de reverência oficial faziam estremece-lo de contentamento e vaidade.

                Com ansiedade esperavam todos os dias aprazado. Eram duas horas da tarde quando se ouviu o estampido de um foguete lançado ao ar para o lado da estrada, e vinte minutos depois a vila estava em poder da força legal. Álvares não deu tempo aos revoltosos de fazer a menor resistência; eles nada suspeitavam e foram assaltados da surpresa. Tomado o Trem de Guerra, quase todos se evadiram e refugiaram nos matos que havia nas circunvizinhanças do povoado. Poucos puderam ser presos, e entre ele figurou Ferrão, que dormia a sesta, e desterrado com o rebate e movimento, saíra à rua com a espada em punho um grupo que estava postado em frente a casa que lhe servia de residência, deu-lhe incontinenti voz de prisão e o cercou.

                Reconheceu então que estava entre inimigos, e vendo-se sem meio algum de resistência, entregou-se pedindo apenas que não o maltratassem. No dia seguinte Álvares fez transportá-lo para bordo da fragata Imperatriz com os outros presos expedindo para esse fim uma canoa a vela diretamente a baía de Marajó, a fim de assim evitar qualquer encontro com os facciosos nos canais e rios que eles estavam aquém das Ilhas entre a Vigia e Tatuoca.

                Neste motim foram feridos somente dois homens, um da parte dos rebeldes e outro da guarda nacional. As autoridades depostas entraram logo no exercício de seus cargos e a ordem pública voltou ao seu estado normal.

2º ATAQUE CABANO À VILA DE VIGIA (MASSACRE DA VILA)

Após a vitória da guarda nacional sobre o primeiro ataque cabano, o presidente da câmara municipal e alguns vereadores saíram da Vila de Vigia de madrugada para não serem pressentidos e caminharam pela má estrada que ia até aquele sítio, para verificar os vestígios deixados pelos cabanos, sem archote, nem luz de qualidade alguma, que os pudesse guiar na escuridão da noite, no meio das matas que, entrelaçando as suas ramas tornavam mais densas e pavorosas as trevas.

                Não puderam continuar a jornada; os propensos eram invencíveis. Esperaram a aurora do dia sentados em um tronco depois de se haverem já afastado do caminho, dando consigo à beira de uma densa lavradas de novo, cujo clarão dentro do bosque os desviara. Não demorou porém que despontasse a aurora, e eles buscando logo a estrada, prosseguiram a sua jornada sem mais contratempo até ao ponto a que se destinavam.

                O coronel Álvares ficou surpreendido com a notícia que lhe deram, e comprometeu-se a reunir os guardas nacionais que pudessem, e a marcha quanto antes para a Vila a fim de restabelecer o regime de lei. E sem perda de tempo mandou avisar os que se achavam mais próximo, e por estes os outros com ordem que todos trouxessem as armas e munições que tivessem. E pedindo aos vereadores que voltassem para avisar e preparar os amigos da legalidade residentes na Vila e nos seus subúrbios, convencionou com eles o sina indicativo de sua chegada a Vila, e os despediu animados do bom êxito que esperavam ter do plano de concentrado.

                No domínio absoluto em que se achavam os facciosos pela tomada da Capital, era de conveniência geral agradá-los e fingir ter nos seus atos confiança, homens sem educação, facilmente se deixaram arrastar por sentimentos ruins, por impulsos de paixões criminosas ao choque de qualquer contrariedade que experimentassem. E por isso os vigienses galgados pela suprema lei da necessidade e pelos conselhos das próprias autoridades demitidas, rendiam obediências simuladas aos revoltosos para não desgostá-los, nem despertar-lhes qualquer desconfiança que viesse embaraçar a trama que urdiam.

Reviver o ódio que lhes tinham os revoltosos pela relutância claramente manifestada contra seus planos. Não havia muito tempo que a câmara municipal se oferecera a Pedro Cunha para  auxiliá-lo na defesa do regime legal, pondo a sua disposição os serviços de seus munícipes. Em maio ele tinha respondido.

“Ciente de que Vossas Senhorias se dignaram em 14 do corrente mês, tenho de declarar-lhes que o estado da cidade é o mais triste possível. O cidadão não desfruta de segurança pessoa e de propriedade, que a constituição garante: a lei existe muda e silenciosa entre as armas dos sediciosos, e as rendas públicas são partilhadas por aqueles que na capital tem a preponderância nos negócios.

O Vice-presidente a quem por lei compete a administração da província foi provado da mesma pelos ofensores da ordem, que até o mandaram esperar para ser assassinado...

Estes e outros fatos posteriores com que os vigienses demonstrarão a sua dedicação à legalidade indispuseram os facciosos contra a Vila, e aqueles que haviam fugido desta do dia 6 de junho na invasão da entrada de Álvares, levaram logo ao sítio Pinheiro a notícia da prisão de Ferrão e de outros; e naturalmente exagerando os excessos para justificar a sua derrota, foram excitar ali o sentimento de vingança, fazendo nascer entre os seus partidários o desejo de esforço e conseguiram o seu intento.

Os rebeldes do Benjamim, reunidos em grande multidão com outros dos Pinheiros, tinham tomado ao prático Correia e barco em que ele acompanhava um brigue de guerra francês, e armando-o em duas peças de pequeno calibre, fizeram-se vela para Vigia em número talvez de quinhentos pouco mais ou menos, servindo-lhe também de meios de transporte um batelão e dezoito canoas de várias dimensões. Chegam a Porto Salvo, pequena povoação distante daquela fica cerca de uma légua, desembarcaram todos, e em conselho deliberaram sobre o melhor plano de ataque.

Acordaram que se operasse o assalto à Vila por mar e por terra ao mesmo tempo, indo o barco e o batelão fazer fogo pela frente para atrair os habitantes, enquanto no extremo ocidente da mesma, no lugar chamado de Pombal, se efetuasse o desembarque da gente que vinham nas canoas, e acometessem pela retaguarda os que chegariam e Curuçá onde tinha de ir desembarcar de noite, marchando depois pela estrada que dali vem ter a vida.

Curuçá é um rio que deságua pouco abaixo de Porto Salvo e bifurcando com outro de nome Guarimã, segue a direção do nascente, tem em suas margens diversos sítios, sendo os últimos já em terrenos em terrenos que formam as suas ribanceiras.

Álvares teve a notícia da chegada dos revoltosos em Porto Salvo, convenceu logo os juízes de paz, a câmara municipal e os demais partidários do poder políticos, a fim de resolverem a atitude e medidas que deveriam tomar. Venceram os que sustentavam a resistência a todo custo, e não havia, oremos, outro alvitre mais decoroso e compatível com a importância dessa localidade.

Álvares não tinha tática alguma militar, nem havia na Vila quem a tivesse. Reuniu à pressa a força que pode, dividiu-a conforme lhe pareceu mais conveniente em três colunas com duas peças de artilharia cada uma, e mandou postá-las no porto chamado do Colégio, na estrada e no trem, colocando nas esquinas mais barricadas a este várias guarnições, cada uma de quinze homens cada.            

Sem nenhuma sentinela avançada, nem vedeta alguma que lhe anunciasse em tempo a aproximação do inimigo, preparou-se somente para a resistência dentro da Vila, quando esta já tivesse sido invadida, nada preveniu acerca da entrada do mesmo lado de terra.

Era uma quinta-feira 23 de julho, quando aos primeiros clarões do dia apareceram em frente a Vila um barco e um batelão carregados de gente. As canoas encostadas à ribanceira que a desde o Pombal até o Igarapé do Tujal desembarcaram os homens que traziam sem a menor oposição; encobertas como estavam pelas remagens dos mangueiros que se debruçavam sobre o rio, nem sequer foram vistas; puseram-se todos em terra saldo de perigos, e esperaram no mato o sinal convencionado para o assalto. 

A coluna do porto do colégio foi a primeira que rompeu o fogo, descarregando                                                    as suas peças contra o barco e o batelão, que lhe corresponderam os tiros com outros de canhões e fuzilaria; um ou outro estampido de arma ainda se ouvia na praia por alguns instantes, mas não tardou que a coluna abandonasse o porto e se fosse refugiar no Trem de Guerra.

Os facciosos invadiram a Vila por vários pontos. Ouvindo os primeiros tiros, tanto os que desembarcaram no Tujal como os que vieram de Curuça, e já se achavam acoitados nos matos que marginavam a estrada, avançaram a correr e se espalharam pelas ruas em grupos mais ou menos numerosos, entrando pelas casas sem o menor respeito ao lar doméstico.

A coluna postada na embocadura da estrada apenas teve tempo de dar um tiro de peça carregada com metralha. Os revoltosos sentindo-se feridos, abandonaram a estrada e se introduziram nos quintais das casas que a ladeavam, e passando de uma para as outras sem que fossem de leve molestados, foram-se acastelar nas circunvizinhanças do Trem, onde se já tinha recolhido quase a totalidade da força legal, surpreendida e acossada por toda parte.  

Portilho, furriel de tropa de linha, conhecido por seu gênio turbulento e sanguinário, era o chefe mais ousado dos facciosos: tirado da prisão em que se achava na capital por ocasião dos motins dos primeiros dias do ano, se havia feito notável pelas doutrinas incendiárias que pregava. Eram seus companheiros inseparáveis dois outros celerados, não menos sanguinários, chamados Bonifácio e Roque. Não era portanto de admirar que por sua ordem ou aquiescência se praticassem tantos atos de selvageria como esses de que foram vítimas os vigienses.

Encantoada a força legal do Trem, os sediciosos ficaram senhores de toda a Vila; e enquanto uns faziam fogo contra aquele, outros saqueavam as casas, varejavam os domicílios sem nenhuma atenção ao decoro das famílias, assassinavam os mancebos e velhos que encontravam escondidos, arrancando-os muitas vezes com brutal violência dos braços da mãe, da esposa, da filha, dos parentes em suma que de joelhos e em soluções lhes imploravam piedade e misericórdia em favor dos infelizes que eles, surdos às mais comoventes súplicas, cruelmente trucidavam a golpe de facas e terçados!

Eram onze horas do dia: os facciosos diminuíram de ardor; sentia-se que já escasseavam os seus tiros. As munições que tinham trazido estavam gastas, e eles começaram a retirar-se. Na casa porém de uma mulher de nome Gregória casada com José Maria, negociante português, encontraram um barril de pólvora e alguns sacos de chumbo apesar de ter Álvares dado ordem de recolher-se ao Trem toda a munição que houvesse nos estabelecimentos comerciais!

Eles deparando com este poderoso recurso, quando na retirada verejavam pela segunda vez a casa daquela mulher, por suspeitarem que lá achariam dinheiro, voltaram imediatamente as armas e acometeram de novo o Trem com desusada ousadia, estando já quase todos embriagados e sem discernimentos que os pudesse guiar.

A força legal resistiu com valentia por muito tempo: cercada por todos os lados, só dominava o quarteirão em que estava situado o Trem. Ainda assim, não cedia um passo. Entre os cidadãos sitiados, uns faziam cartuchos, outros carregavam as armas, muitos davam tiros; todos se mostravam empenhados na luta, e porfiavam nos atos do patriotismo com heroica dedicação.

Os facciosos por sua parte não se mostravam menos esforçados: das casas fronteiras ao Trem e da rua faziam fogo renhido no meio das peças que tinham mandado buscar, ensurdeceram os ares com vivas frenéticos, próprios do estado de embriaguez em que todos se achavam. Dentro do trem soube-se que eles iam acontecer com balas de artilharia, e todos estremeceram com a idéia de que assim o inimigo poderia abrir brecha e entrar.

O Trem era um prédio particular na rua de Nazaré, fazendo esquina com a Travessa do passarinho: de madeira com simples enchimento de terra, não oferecia solidez para resistir ao choque de balas de canhão, que já estava assentado com pontaria para a porta e entrada. O juiz de paz, João Ataíde, aconselhou então que se suspendesse o fogo e se pedisse tréguas.

Os vereadores e todos os cidadãos ali reunidos hesitaram por algum tempo, porém jugando encontrar neste alvitre meio provável de salvação, acederam e em sinal de paz içaram uma bandeira branca.

Os rebeldes também por sua vez suspenderam fogo e simulando relação amistosas declararam terminada a contenda e pediram aos sitiados que aberta a porta, depusessem as armas e saíssem para a rua sem receio algum. Contra a opinião dos previdentes que não se deixavam abalar pelos protestos do inimigo, abriram a porta e muitos saíram desarmados, depois de terem lançados dentro do poço do Trem toda a munição que lhes restava.

Tinham decorridos apenas alguns momentos, quando se ouvia gritar- fogo!... E uma descarga prostou-os por terra, uns mortos, outros mutilados e semivivos e dar gemidos de dor e a implorar compaixão! E longe de se enternecerem, os assassinos se arremessaram como feras sobre esses desgraçados que agonizavam, e a couces d’armas, a golpes de terçados acabaram de dar-lhes barbaramente a morte.

Invadido o Trem de Guerra, não deixaram com vida um só daqueles que por cautela ou por medo se tinham deixado ficar, ou passado para as casas vizinhas do quarteirão se refugiaram em vários esconderijos que jugavam insuspeitos. Álvares que se achava a testa dos combatentes, foi baleado no primeiro encontro, e expirou poucos instantes depois de ferido.

Pedro Antônio Raiol, desventurado pai de quem escreve estas páginas repassadas de dor, foi também uma das vítimas imoladas nesse dia à sanha dos assassinos. Como vereador que era da câmara municipal achava-se no Trem de Guerra, reunidos aos demais agentes da autoridade pública em defesa do regime legal, e lá foi traspassado por uma bala que lhe deu morte instantânea.

Comemorando os acontecimentos da província, fazemos reviver do passado os varões que mais ou menos representaram neles e não muito que nestas singelas linhas rendando culto à memória do cidadão que nos deu o seu. É dever sagrado do filho guardar no santuário do coração a imagem querida de seus progenitores cercando-os sempre de amor, de respeito e veneração durante a vida, e honrando na campa a lembrança saudosa de seus nomes.

Seja-nos pois lícito pagar neste momento o nosso  sincero tributo de reverência filial, gravando aqui a memória desse patriota que também caiu aos golpes da anarquia na data mais calamitosa da história paraense. E queiram os céus que no modesto trabalho do filho possa o pai encontrar um monumento, embora rude e simples capaz de guardar o seu nome contra a ação corrosiva do tempo.

No dia seguinte os facciosos obrigaram o vigário, padre Bentes á cantar uma missa em glorificação da vitória! E findo este ato religioso, reuniram-se à porta da igreja, deram três descargas, levantaram vivas aos seus chefes mais proeminentes, e espalhando-se pela Vila saquearam de novo as casas sem deixar intacto algum que lhes pudesse servir para qualquer mister da vida.

Não tendo mais o que roubar, começaram a retirar-se com a enchente da maré. Quando anoiteceu, as ruas estavam desertas; só encontravam-se cadáveres em começo de putrefação. Em frente ao Trem não havia menos de sessenta corpos, estendidos no chão, golpeados e disformes, apresentando um quadro horrível e contristador muitos haviam pelas casas, pelos quintais, pelos caminhos, pelos portos, e pelas praias!

Ninguém se animou a sair à rua nessa noite; todos receavam encontrar ainda os malvados e ser vítimas de alguma cilada. Ao amanhecer de sábado é que se convenceram de sua efetiva retirada.

As mães, as esposas, as filhas saíram então em procura das pessoas que lhes eram caras, e ao encontra-las entre os cadáveres desfigurados, imagine-se, quantas lágrimas, não derramaram essas infelizes criaturas, vendo cortadas as suas mais ternas afeições pela pervercidade dos sicários.

Era preciso quanto antes dar sepultura aos restos mortais de tantas vítimas, que havia já dois dias estavam expostos ao sol e ao relento.

E ninguém se negou a este tributo devido aos finados. Abriram grandes valas e nelas lançaram um a um os cadáveres. Alguns foram entregues aos cuidados da família que os solicitaram, e conduzidos para lugares separados tiveram jazigos mais descentes. Os facciosos tinham enterrado os seus dentro da igreja.

O lanchão artilhado que mandado da capital em socorro da Vila só chegou no sábado quando tudo estava acabado, entrando ainda no dia seguinte a escuna Bela-Maria, que veio fundear em frente ao porto chamado da Ribeira. Traziam pouca gente, e receosos de algum assalto dos facciosos, que souberam estar em Colares e ser em grande número, levantaram  ferros e desceram até o Sítio Itapuá abaixo da Vila meia légua.

Para este ponto correram todas as famílias que existiam na Vila e nas circunvizinhanças. De dia desembarcaram e viviam em terra; de noite passavam para a escuna e para as próprias canoas que faziam atracar aquela. Quatro dias decorreram, e os gêneros alimentícios cada vez mais escasseavam. A falta de recursos tornou-se geral e não convinha conservar tanta gente assim aglomerado ao rigor do tempo.

O vigário que era natura da Vila, resolveu ir então a capital em comissão com os outros cidadãos pedir providências que pudessem aliviar os vexames e as misérias que os habitantes sofriam.

Não pôde porém conseguir força alguma que viesse restabelecer o sossego público por não haver nenhuma disponível; conseguiu apenas ordem para que a escuna transportasse todas as pessoas que quisessem ir para a capital, onde seriam remidas as necessidades de cada uma, conforme permitissem as circunstâncias.

Com raras exceções, todos obedeceram a ordem do governo e embarcaram para a cidade de Belém deixando a Vila quase deserta.

Os moradores dos sítios ficaram aterrorizados abandonaram as suas casas e foram refugiar-se nos matos com privações e sustos continuados.

Deixemo-los por enquanto no asilo agreste das selvas, e verifiquemos os gravíssimos acontecimentos que se cederam na capital como efeitos ecos ao palácio do governo, e despertar o marechal contra a ferocidade dos facciosos. Não era mais possível contemporizar. Crime tão atroz não podia ficar impune sem açular a anarquia e cada vez mais enfraquecer o princípio da autoridade. 

- (29 de Julho) A notícia das prisões ecoou por todo o Amazonas, ativando forte mobilização Cabana: - Da vila de Conde, Eduardo Angelim lançou uma Proclamação Revolucionária, o povo armou-se com as poucas armas que não foram entregues aos legalistas, com armas quase imprestáveis, com suas ferramentas de trabalho agrícola e instrumentos de cozinha.
- (02 de Agosto) Da vila do Acará, Antônio Vinagre envia para o Presidente Jorge Rodrigues uma Carta – ultimatum. O ultimato: se os Cabanos não fossem postos em liberdade o restante entraria em Belém e nas palavras do próprio Antônio Vinagre “não restará pedra sobre pedra”.
- (14 de Agosto) Era madrugada os Cabanos acampados no sítio Murutucu ouviram a famosa Proclamação de 14 de Agosto, em seguida marcharam em direção à Belém.
- (9:00 h) No alto da localidade de Nazaré, onde aguardariam a resposta do ultimato, os Cabanos foram atacados por um destacamento da Força Mercenária Alemã, composta por 200 soldados.
- Inicia a Novena de Fogo sob Belém.
- (15:00) Morre o Líder Cabano Antônio Vinagre. “Encarou a morte sem dar um passo à retaguarda; caiu de peito sobre a culatra de uma peça (canhão), quando fazia pontaria e disparava um tiro! Uma bala varou-lhe o crânio, morreu pela pátria e pela liberdade! - Eduardo Angelim, dando a notícia em proclamação”.
- (15 de Agosto) Ataque Cabano ao Arsenal de Guerra.
- (22 de Agosto) Os Cabanos decidem aplicar no Arsenal de Guerra a mesma estratégia que estava sendo utilizada contra o Palácio do Governo, a guerra de guerrilhas.
- (23 de Agosto) Após 9 dias interruptos de fogo, os legalistas retiram-se para abordo de seus navios de guerra. Os Cabanos reconquistam a Capital. Inicia-se o bloqueio naval legalista.
- (26 de Agosto) Aos 21 anos de idade, Eduardo Angelim é aclamado pelo povo e pelo Clero o 3º Presidente Cabano, o mais jovem presidente do Brasil.
- (15 de Dezembro) Instalado na ilha de Tatuoca, Jorge Rodrigues começa a receber grande contigente de reforço militar, de lá ele controla o arquipélago do Marajó e o bloqueio à Belém.
1836
- (09 de Abril) Chega à ilha de Tatuoca, o novo Presidente nomeado pela regência, um velho conhecido dos paraense, trata-se de José de Souza Soares Andréa.
- (12 de Maio) Os Cabanos iniciam a evasão de Belém, pelo Rio Guamá.
- (13 de Maio) 9:00 – Um grupo de Cabanos em retirada é avistado por um navio de guerra, que operava o bloqueio, e então abrem fogo contra a embarcação, que responde fogo contra os Cabanos.
- (15:00) Retirada em massa dos Cabanos, rompendo o bloqueio naval.
- As autoridades Legalistas entram em Belém.
- A Revolução Cabana permuta - se em luta de resistência.
- José Soares Andréa, assume na capital, a presidência da Província e o Comando de Armas, o mesmo cargo que ocupou em 1830.
Para aniquilar os Cabanos, Soares Andréa instalou uma tirania como nunca houve na Amazônia; implantou severo Regime Militar, submetendo toda a população à Lei Marcial (recrutou criminosos das cadeias do Rio de Janeiro, impôs censura de imprensa, alistamento militar obrigatório para homens de 15 à 50 anos e de mulheres que "perturbassem o sossego das localidades". Promovendo a perseguição e execução sumária dos Cabanos).
- (30 de Junho) A 1º Expedição de Caça à Eduardo Angelim encontra-o nas proximidades do Acará. Mesmo ferido na perna direita, Angelim recebe ajuda e consegue escapar da emboscada letal.
- (Outubro) Eram os últimos dias deste mês, quando a 2º Expedição (desta vez formada por 8 navios de Guerra e 1.130 soldados!), obteve êxito na captura de Eduardo Angelim. Após o sucesso da Expedição muitas outras foram realizadas com o caráter de Guerra de Extermínio do povo cabano, que resistiu bravamente por cerca de quatro anos com armas em punho por toda a região amazônica.
- (08 de Abril de 1839) Soares Andréa é exonerado da Presidência e do Comando de Armas. Acaba o regime de Lei Marcial deixando um triste saldo de mais de 30.000 mortos (leve em conta que toda a população da região amazônica era estimada em 100 mil habitantes). Assumiu como novo Presidente o paraense Bernardo de Souza Franco.
- (04 de Novembro de 1839) Concedida a Anistia (perdão) Excepcional para a Província do Pará.
- (15 de Agosto de 1840) Assume o novo Presidente do Pará, João Antônio Miranda.
- (22 de Agosto de 1840) Decretada a Anistia Geral*
• Eduardo Angelim e Francisco Vinagre são obrigados a residir por 10 anos na Província do Rio de Janeiro. Foram enviados para lá no início de 1841.
• No Rio de Janeiro foram novamente postos em cárcere, talvez representarem “perigo a ordem”. Transferidos posteriormente para o presídio de Fernando de Noronha.
- (05 de Maio de 1851) Eduardo Angelim retorna ao Pará. Na mesma época retorna também Francisco Vinagre.
- (02 de Novembro de 1873) Morre Francisco Vinagre.
- (11 de julho de 1882) Morre Eduardo Angelim.

Na imagem do final da década de 1980 vemos o prédio do antigo e original "Trem de Guerra". Neste cenário aconteceu a sangrenta batalha entre os revolucionários cabanos e a guarda armada da Vila de Nossa Senhora de Nazaré da Vigia, em 1835. Fato que marcou profundamente a história de nossa terra, quando no conflito, os membros do Legislativo da época, refugiados neste local, foram mortos de forma violenta pelos revoltosos guerreiros da "Cabanagem".
Hoje, o prédio constitui a Câmara Legislativa do município (Desde a década de 1990 quando demoliram o original e construiram um novo prédio com as linhas arquitetônicas preservadas)