Rua Pedro Raiol, 328

Bairro: Centro - Vigia, PA

CEP: 68.780-000

E-mail: vigiapara400@gmail.com

 

© 2016 por INFOGRAFIC.

Orgulhosamente Vigiense

  • Google+ Clean
  • Twitter Clean
  • facebook

Procissão das Virgens de Nossa Senhora da Boa Morte

O Inventário do Pará apresenta as imagens de vestir, de Belém e de Vigia, como peças que ficavam expostas nas capelas voltadas para a devoção de Nossa Senhora da Boa Morte.

 

Na transcrição do documento sobre a Igreja de São Francisco Xavier de Belém, lemos:

Na mesma capela do Santo Cristo está elevada algum sobre a banqueta do altar a imagem da Senhora da Boa Morte inclusa dentro do mesmo retábulo com vidraças, e cortina, ou véu, que serve de encerrar: a Imagem tem 6 palmos, e, meio, e é de vestir com túnica de damasco branco de ouro; sei camizote de cambraya com pontos de rendas finissas [sic], sua coronilha variada de preço; sua almofada bordada, e outra mais que serve na cabeça da Imagem; sua palma de flores de prata, e canotilho na mão mais 2 palmas de canutilho de prata com variedade de flores, e 8 ramilhetes de flores de seda, 6 jarrinhas da Índia, vasos dos ditos ramilhetes; mais 4 ramilhetes grades também de seda. Tem 2ª Imagem da Senhora também de vestir de 7 palmos, que serve na procissão. Tem 3 camisotes finos vindas de França por encomenda: um vestido túnica, e capa de damasco cor de perola de ouro guarnecido todo com galões largos de ouro fino; outra coronilha, e palma da mesma sorte que acima  seus brincos, e cruz de brilhantes, e o mesmo tem a Imagem, que está no altar, como também outro vestido de damasco roxo de ouro guarnecido de galões do  mesmo para a quaresma. Um coxim grande de damasco camesim de ouro para a Imagem da procissão, 4 forquilhas para sustentar o andor [grifo nosso] (GOVONI S.J., Pe. Ilário, 2009).

Neste ponto do texto, vale dizer novamente que a devoção a Nossa Senhora da Boa Morte foi introduzida na igreja do colégio de Belém e talvez em Vigia pelo responsável pela pintura e douramento das capelas da casa-sede do Grão-Pará, o padre João Teixeira (ver capítulo 1).

Acreditamos que a imagem citada no Inventário seja a que ele doou para a igreja, pois, segundo Alberto Lamego (1925) e Serafim Leite (1953), o padre estava atuando até próximo da expulsão da Ordem no Pará, constando inclusive da lista dos prisioneiros, mas faleceu antes de receber a notícia do cárcere.

Outro ponto interessante constatado no documento está na quantidade de adornos que essas imagens recebiam, havendo materiais importados em grande variedade de tecidos brancos e finos, com preços sortidos, a par de opulentos bordados, às vezes com fios de ouro.

Além das vestes, eram comuns flores e coroa de prata, brincos, colares e anéis de metais preciosos, como também perucas, cílios e o tudo mais que pudesse ser adequado para compor a representação de Nossa Senhora de maneira condigna, segundo as orientações tridentinas de decência e decoro, ao gosto estético e à moda da época.

 

Regina Quites (2006) afirma que a grande quantidade de elementos acrescidos nas imagens de vestir tinha como função esconder o manequim ou o gradeado (quando se tratavam de imagens de roca75) para que o corpo do santo parecesse o mais natural possível.

 

A festa começou no século XIX até o século XX, foi importante porque veio do movimento abolicionista e reflete a liberdade das mulheres para se expressarem, cultuarem, e serem vistas. É o troféu de resistência dessas mulheres e se tornou a festa de interação, porque atrai gente de todos os cantos de Vigia.

O encanto do público e dos fiéis não se resume à importância histórica da festa. As roupas utilizadas pelas irmãs da Boa Morte eram um atrativo à parte durante os festejos. O luto pelas irmãs já falecidas é representado pelo branco assim como a vestimenta para o ritual simbólico do sepultamento de Nossa Senhora, a procissão é composta somente por mulheres virgens, as vestes com blusas e túnicas brancas bordadas e lenços branco no cabelo e uma fita azul a redor do pescoço, é utilizado durante o percurso.

A festa sagrada tem rituais estabelecidos e seguidos à risca há mais de 50 anos pelas mulheres da Irmandade. No primeiro dia, as irmãs fazem o cortejo com a imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, a mesma que até hoje fica no atar lateral da Matriz, saindo da Igreja Madre de Deus em direção as ruas e caminhos da cidade. Quando, retornavam ao Templo da Mãe de Deus, era celebrada uma missa em memória das almas das irmãs falecidas, seguida da sentinela e da Ceia Branca, composta por pão, vinho e peixes.

No segundo dia, uma missa simbólica de corpo presente abre a programação, seguida da procissão de enterro de Nossa Senhora da Boa Morte, a festa é uma confraria que mantém toda uma tradição religiosa e política.

 

DA IMAGEM

Em Vigia, está uma Nossa Senhora da Boa Morte em tamanho correspondente ao Inventário com 6 palmos de comprido (cerca de 130 cm) (FIG.116 e 117), inclusa dentro de uma caixa de vidro com molduras de alumínio, embaixo de uma mesa de altar nova, na lateral da nave.

Ressaltamos que a publicação referente à II Exposição de Arte Sacra de Vigia, ocorrida no ano de 1976, cita uma Nossa Senhora da Boa Morte em tamanho natural, com aproximadamente 250 anos, que acreditamos ser a mesma que está na Igreja Madre de Deus nos dias atuais.

Do imaginário popular vigiense, era constante ver crianças ao redor daquela imagem que acompanhavam dia-a-dia o trocar das posições das mãos dessa imagem, sendo constatadas muitas vezes, não se sabe se alguém as trocava com essa intenção.