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Orgulhosamente Vigiense

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Cordões de Pássaros e de Bichos e Boi Bumbá

              Segundo o historiador vigiense Paulo Cordeiro 0s bumbás e cordões de Vigia  abrange a presença desses folguedos populares na cidade ao longo do século XX, acompanhando as formas de apresentação, a espacialidade dos festejos e a repercussão social dessas práticas festivas populares.

            A pesquisa vertida em texto assume um aspecto híbrido, ao ligar o levantamento histórico-documental com um trabalho de campo bem conduzido. O resultado é um excelente painel das festas populares vigienses: com os grupos de boi bumbá que percorriam as ruas da cidade ou que se apresentavam na forma de comédia, com os bumbás e cordões de pássaro provenientes da zona rural, com a emoção dos espectadores, dentre outras coisas.  Praças, ruas, quintais de residências são apresentados como palco das apresentações, recantos dotados de conteúdos simbólicos ligados a estes eventos.

            Para exibir esse rico cenário, Paulo Cordeiro visitou localidades rurais como Itapuá, Porto Salvo, Guajará, , Maracajó e Fazenda; percorreu registros escritos de brincantes ou donos das “brincadeiras”; vasculhou fotos antigas de particulares e notícias de jornais vigienses publicados ao longo do século XX.

            O estudo histórico-antropológico desses folguedos, considerando a realidade amazônica, enseja formas inovadoras de compreender os sentidos das relações de poder e das trocas, conflitos e alianças entre os diversos sujeitos sociais envolvidos ou que gravitam em torno dos eventos festivos.

O folclorista Bruno de Menezes, em um estudo clássico1 de 1972, define o Boi Bumbá paraense como variante do bumba-meu-boi nordestino e como folclore junino orientado para o teatro popular. Suas matrizes dramáticas estariam no patriarcalismo colonial2, denotando a proveniência rural em grande medida associada ao universo da escravidão. Para Menezes, o bumbá é uma espécie de sátira do trabalho rural. A hilariedade da apresentação estaria situada no trágico dos conflitos subjacentes entre senhores e a população rural subordinada, aí incluído o contingente escravizado.

            Desde fins do século XIX, o bumbá de origem rural se estabeleceu de forma pioneira na periferia das cidades paraenses, acompanhando a difusão da prática da capoeiragem. Sua motivação principal estaria na dramatização lúdico-artística da “luta de classes” entre senhores versus índios e negros escravizados3, agora encenada em outro contexto sócio-histórico.

             Os cordões de pássaro e de bichos (de onças, peixes, camarão, caranguejos, etc.) são também de origem rural e tiveram suas primeiras menções na imprensa paraense datadas de meados do século XIX. São definidos por Piñon4 como “grupos sociais folclóricos” formados por famílias nucleares e seus agregados.

            Os cordões têm como cerne enredos românticos e melodramáticos, em que a trama gira em torno da morte e ressurreição de um animal (como no bumbá)5. De aspecto fundamentalmente teatral (com elementos como palco, figurino, músicos, etc.) os “pássaros” e “bichos” são dotados de forte comicidade assentada na “matutagem”, isto é, em cenas engraçadas de matutos que são o ponto alto de empolgação da platéia.

           As desigualdades sociais, reconfiguradas no Brasil e na Amazônia contemporânea, continuariam a servir de “câmara de eco” para à sátira das toadas, das comédias e das fábulas dos cordões. O domínio popular da arte de festejar se revela, neste estudo, com a proeminência de personagens das camadas populares na organização dos bumbás e dos cordões e com as estratégias de auto financiamento praticadas pelos brincantes.  Ao mesmo tempo, brincantes e organizadores aprendem a lidar com os meios burocráticos para contar com o apoio dos gestores públicos e estabelecem alianças com empresários locais que possam contribuir com as apresentações.

            É esta vivacidade, esta força dinâmica das manifestações culturais populares vigienses.